Arquivo mensal: maio 2010

Brasil brasileiro?

Algo me intriga: faltam menos de duas semanas para o início da Copa. Obviamente não é isso que me intriga, e sim a impressão de que não estamos tão perto do maior evento futebolístico do mundo.

As promoções estão por toda a parte, vendendo até bolinho com a desculpa de que Brasil, Copa e bolinho têm “tudo a ver”. Isso sem falar das safadinhas que prometem mundos e fundos caso o Brasil seja campeão (isso não seria considerado “mexer” com a superstição do brasileiro?!).

As propagandas temáticas, tanto dos patrocinadores da Copa quanto dos “marginalizados”, também nos lembram, a todo intervalo comercial, de que estamos quase lá.

Vale destacar aqui a minha incompreensão quanto à utilização do Dunga como garoto propaganda de várias marcas. Brahma, Guaraná Antarctica e Vivo: por que raios usar alguém que é odiado por parcela considerável da população para atestar a qualidade de seu produto?

Usar o Dunga, hoje, como garoto propaganda é quase o equivalente a usar o vilão da novela pra dizer que o que você vende é bom. Ou seja: não tem credibilidade. Não tem carisma. Não tem simpatia. Não tem adesão. Não tem sentido.

Ok. Deixemos isso de lado. Voltemos às vésperas da Copa e o clima de não-patriotismo. Uma ou outra bandeira, tímida, na sacada; o calçadão de Curitiba com postes em verde e amarelo; alguns bolões: considerados extremamente otimistas para levar a seleção à final.

O que acontece? Por que nem parece que estamos praticamente em Copa?! Eu tenho uma teoria.

É tudo culpa do Dunga. Parece zoeira, mas é sério. Eu tenho a impressão de que o Dunga conseguiu desanimar os brasileiros. Não estou discutindo a qualidade da seleção convocada, estou discutindo o modo do treinador brasileiro tratar a imprensa e seu próprio  povo e no que isso resultou.

Parece até que o Brasil e a Seleção estão “de mal”. E de onde veio isso? É clichê, mas eu sinto que foi tirado um pouquinho da alegria do futebol e da seleção brasileira. E é justamente isso que nos diferencia do resto.

Ficamos com aquele futebolzinho burocrático, que dá lugar ao medíocre e regular e exclui as grandes estrelas. O Brasil não está acostumado a isso. Nossa seleção sempre esteve em evidência pelo futebol arte, pelas grandes jogadas e pelos grandes jogadores, e não porque nosso volante titular foi escolhido o pior jogador da temporada italiana. Ou porque nossos titulares são reservas em seus times. Ou porque são nervosinhos. Ou porque são imaturos. Ou porque são mascarados. Nunca foi isso.

(PVC detonou o Felipe Melo, hahaha. “Cri, cri, cri”.)

Ninguém consegue agradar todo mundo, mas Dunga e cia. têm conseguido desagradar muita gente.

Pode soar como bobagem, mas eu acho que o Dunga apagou um pouco o brilho do futebol brasileiro. Quem joga pelo conjunto é time pequeno! Quem joga retrancando são nossos adversários! Os números da “Seleção Brasileira de Dunga” (e ele acha que é só dele mesmo) são incontestáveis: Copa América, Copa das Confederações, Classificação em 1º lugar nas eliminatórias.

(Só pra constar, o Brasil fez campanhas semelhantes em 1982 e 1998. Pelo menos, em 1982 jogava bonito. Será que a história vai se repetir?)

Como ainda discutir isso? Como não ter vontade de assistir um time desses? Como não querer torcer por um time desses? Pois é. Como? De uma maneira ou de outra, a CBF conseguiu tornar ‘fosca’ a relação do brasileiro com a seleção. Não bastasse isso, a grosseria/antipatia/arrogância(e)teimosia do Dunga só pioram a situação.

Não estou dizendo aqui que o Brasil não vai ganhar a Copa. Muito menos que vai. Eu particularmente não acho que temos um bom time. Apesar disso, mesmo com essa “seleção meia boca” ainda temos a melhor seleção ou um dos melhores times da Copa. Perderíamos, no entanto, para a Seleção dos Renegados. Mas como ela não estará na África do Sul podemos ficar mais tranquilos.

Fato é que a Copa está aí! E é o Brasil, no fim das contas. Não temos muitos ídolos por lá, mas é Copa! E Brasil! De novo, é indissociável. Assim como o amor do brasileiro pela Seleção. Pode até ficar meio fosquinho, gerar piadinhas e bolões “inversos”, mas continua lá. Não tão firme, mas forte.

Além do quê, é o evento esportivo mais divertido ever. E o que realmente importa é sermos desclassificados depois da Argentina! Contamos com a ‘desconcentração’ (bebida+sexo+churrasco) deles nessa nossa meta sul-africana.

Publicado por: Lê Scalia

O maior #epicfail da história do Marketing

Foi uma enorme ação de merchandising, com divulgação quase em massa na Internet, inclusive no Twitter. As expectativas estavam lá em cima, mesmo sendo difícil de acreditar que alguém ia fazer uma chuva de Twix no meio da Avenida Paulista, em São Paulo. Foi muuuita gente. Mas apenas cerca de 2 mil entraram. A tal chuva não veio de cima, como o esperado, mas de baixo, como, sei lá, um gêiser fajuta. Não, mas põe fajuta nisso!

As pessoas levaram guarda-chuvas! Estavam esperando levar muitos chocolates pra casa. Até porque, você pensa assim, nem é tão improvável distribuírem chocolates de graça, o Twix é barato e levinho, não faz mal se ele cair aos montes do céu, né? É, mas alguém se decidiu por uma brincadeira sem graça e fez chover PAPEL em vez de chocolate…

Conclusão: o maior epic fail da história das ações de marketing. A marca conseguiu fazer muitos inimigos não só entre as milhares de pessoas que ficaram de fora da chuva, mas, como essas coisas repercutem, conseguiu também se ferrar no Twitter.

A desculpa dos organizadores é de que apenas 2 mil pessoas puderam entrar no local por questões de segurança. Concordo, imagina o ofurô (!) que ia ser milhares de pessoas loucas por alguns chocolates… mas a questão é a seguinte: quando você planeja viralizar uma ação – se é que dá pra planejar um viral – você não sabe o que esperar, uma multidão de gente ou ninguém. É bom estar preparado para os dois. Faltou um planejamento melhor e competência para lidar com a insatisfação das pessoas. Papel? Não podiam distribuir chocolates? Além disso, o twitter do @twixbrasil adotou a postura de ignorar as críticas negativas. #porratwix.

Já até fizeram o tumblr Porra, Twix! com alguns dos twitts que chegaram aos trending topics com as hashtags #chuvadetwix#putafaltadetwix.

Misturei Activia com #chuvadetwix e agora estou cagando papel. #putafaltadetwix

Ouvi dizer que a #chuvadetwix foi tão boa que 2/3 do publico saiu pedindo BIS! #fail

Depois do #AlpinoFast sem Alpino, vem a#ChuvaDeTwix sem Twix! Tendência anti-calórica

Pooooois é. E agora, Twix? Veja no vídeo abaixo, a tão esperada “chuva”… Comentários?

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Oh, Africa!

O Brasil é, indiscutivelmente, a maior seleção de futebol dessa e de outras realidades paralelas. Campeã do mundo 5x, esperançosa pela 6ª (#Fa-il). Então, talvez seja uma visão particular, mas eu acho o combo FUTEBOL + COPA +BRASIL algo indissociável. Pelo jeito, só eu.

Ou alguém mais achou (muito) estranho a ausência da representação brasileira no clipe do Akon? É quase uma “trilha (un)oficial da Copa”, se espalhou pelo comercial da Pepsi e é, de fato, bem legal, mas sério? Sério??? Como desfizeram do Brasil assim, de boa?

O clipe mostra vários torcedores de cara pintada, alguns com uma super tradição no futebol, tais como Turquia ou Grécia. E o Brasil, cadê mesmo? Vê-se fácil que eu fiquei meio de cara.

Fora “isso” (que podemos chamar sem injustiça de #EPICfail), o clipe é muito bom. Achei bem a cara da Copa e também a cara da África (só não é a cara do Brasil). Agora, uma confissão: tudo que eu vejo/ouço da África do Sul me lembra O Rei Leão. #Prontofalei.

Isso não é pejorativo, é apenas a constatação de que a Disney fez um excelente trabalho de ambientação e de trilha sonora no filme, haha (que é eternamente um dos meus favoritos). Mas feche os olhos e ouça… dá pra imaginar fácil o Simba correndo pelos campos.

Agora parando de divagar, resta a dúvida: por que o Brasil foi deixado de fora? O Kaká aparece, bem no finalzinho, entre os jogadores que participaram da propaganda da PEPSI. A única falha, na minha opinião. Não só porque é o Brasil, mas porque realmente não fez sentido.

Fica o clipe :]

Se alguém souber a razão, fico grata por dividir!

Publicado por: Lê Scalia

Bartowski, Chuck Bartowski

Este post contém SPOILERS (de toda a terceira temporada de Chuck)

A terceira temporada de Chuck começou de um jeito que nem o fã mais alucinado imaginaria ser possível. Extremamente engraçado, com muita ação e com o romance ali, presente em cada cena.

Mas então, a série foi para um caminho diferente e a presença do superhomemagente Daniel Shaw acabou dando um rumo um pouco mais inesperado. O que antes parecia interessante e um personagem bem construído, se tornou aquele ‘insuportável’ que quase toda série tem. E olha que nessa época ele ainda era bonzinho!

Vale dizer que sua (falta de) atuação não ajudou, e sua cara de nada só foi causando mais antipatia. Fato foi que ali pelo episódio 8 (ele entrou no 4º) ninguém mais aguentava olhar para o cabelo arrumadinho de Brandon Rough. Nem sua beleza (considerável) colaborava.

Então, de repente, mudaram também a Sarah. E esse talvez seja o único aspecto negativo dessa excelente terceira temporada. Um ciuminho? É ótimo. Agora, forçar a barra e empurrar para o público uma confiança instantânea entre Sarah e Shaw foi ridículo! Contar pra ele, logo pra ele, que ela se chama Sam? Só não foi pior porque ela não tem cara de Sam.

Mas eis que a Hannah (Kristin Kreuk) saiu e as coisas começaram a se acertar. Chuck voltou a ser o bom, velho e desastrado Chuck e foi valendo a pena. Logo depois do meio da season, veio a revelação que seria o fim dessa temporada antes de a NBC encomendar mais 6 episódios. E realmente, Chuck vs. the Other Guy (S03E13) teve mesmo cara de season finale. Talvez até series finale.

Mas teve um fôlego a mais e palmas para os produtores e roteiristas. Conseguiram elevar o nível da série e esses últimos 6 episódios foram maravilhosos. Destaco, pessoalmente, o episódio com a participação de Christopher Lloyd (S03E16 – Chuck vs. the Tooth). Achei esse um dos episódios mais bonitos e maduros de Chuck.

E isso é fato a ser ressaltado: a maturidade de Chuck. A série e os personagens amadureceram bastante nesta temporada. E embora meu coração doa um pouquinho, porque sinto falta dos finais increvelmente doces e tensos entre o Chuck e a Sarah, além do delicioso sarcasmo do Casey, foi tudo muito bem feito.

Outro ponto positivo: as sequências de ação (cenas de luta e afins) sempre foram muito bem colocadas e realizadas em Chuck, e foi muito legal poder ver Zachary Levi no centro dessas ações. O que vimos durante esse dois anos – a excelente química entre Levi e Strahovski – valeu também para as lutas e essa talvez seja a minha cena de ação favorita na série:

Chuck nos fez cair de amores pela série de novo. E de novo. E de novo. A cada episódio havia uma nova razão para esperar pela próxima semana, sempre ansiando por algo bom, mesmo que a série tenha se tornado um pouco menos leve.

E esse fim de temporada foi como se alguém acabasse de arrumar uma mesa toda bonita, elegante, com cada coisa em seu lugar, cada peça encaixada, e então uma outra pessoa puxa o forro da mesa. Tudo que nos foi dito foi deixado para segundo plano frente às informações apresentadas nesses episódios.

Genial ver a Ellie participando, algo do que seria impossível fugir devido aos acontecimentos nesta season. E mais genial ainda foi ver o Chuckzinho se tornando um intersect ainda criança. O que dizer, então, da aparição da mãe deles no fim?!

Chuck me lembrou muito Prison Break. Quando você termina de assistir a esse episódio você pensa: “eles já tinham imaginado isso tudo”, tamanha a coerência entre os acontecimentos. Assim como acontece nas temporadas de Prison. Fato é que sabemos muito bem que nem em uma e nem em outra tudo estava planejado, o que não tira os méritos dos criadores por conseguirem manter tudo em alto nível.

Bom, por fim, o que temos ao final da terceira temporada é Chuck como um espião. Finalmente! Um espião completo, seguro (relativamente) e, ainda assim, Chuckster. É nítido que essa é minha série favorita atualmente. E que vai sempre ser uma das séries pela qual eu tenho mais carinho. Portanto, é opinião de fã… mas fico extremamente feliz que a NBC, o Subway, a Ali Adler e todos os outros que se dedicaram tenham conseguido manter a série.

Acredito que teremos só mais uma temporada. Mas se vier com um fim digno, que venha. Melhor 4 temporadas em altíssimo nível do que várias decaindo ou sem final. Chuck é uma série diferente. Eu vivo repetindo isso. Mas uma vez que você se rende, é impossível voltar atrás. Vivo repetindo isso também. Eu e a crítica americana, haha. Enfim, sabe como é… ninguém resiste aos charmes de um Bartowski.

(Esse post encerra alguns dos finais de temporada dos Biscoitos Sortidos)

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Publicado por: Lê Scalia

Chove chuva!

Ok, se você pudesse escolher uma coisa, só uma, pra cair do céu, o que seria?

E não, a opção das Weather Girls (embora interessante e até mais divertida) -homens (It’s raining men) -, não vale.

Mas, se isso não dá, existem evidências de chuva de uma outra paixão feminina: cho-co-la-te. Gente, assim, eu pirei quando vi essa notícia. Chuva. De Chocolate. CHUVA!!!

Eu sei que estou meio histérica, haha, mas é CHUVA DE CHOCOLATE!!! Twix, para ser mais exata (eu AMO twix). E tem até as condições exatas que vão propiciar o fenômeno: Av. Paulista, 1.230; Bela Vista, Centro; São Paulo, SP. Data? Domingo (30/05). Horário? 14h. (+ ou – perto do MASP)

E o melhor, tudo na faixa. A tal chuva de twix faz parte do que a Folha chamou de “flashmob”, mas eu não acho que esse seja o termo mais adequado nesse caso. Se bem, né, que o nome é o que menos importa, o fato é que a agência Caju68 (criando para a MARS Brasil) realiza uma das ações que me faz lembrar porque eu gosto tanto de publicidade.

Foi criada uma campanha, que falava desses “estranhos fenômenos” que aconteciam desde sempre, e que eram estudados pelo historiador Nicolau Lourenço. Ficou bem divertido e chamou a atenção (também, com 9 mil chocolates [300kg] fica difícil passar despercebido).

E se você é paulistano, ou estará em São Paulo no domingo, morgando, #fikdica. Uma chuvinha de chocolate é sempre bem-vinda.

Chove sem parar!

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Previsão de tempo: “Chuva de Twix”
Chuva de Twix na Folha de São Paulo

Publicado por: Lê Scalia

E se personagens falassem?

Este texto foi originalmente publicado no PSV Crônicas, vencedor do 1º Desafio de Crônicas. Confira também a entrevista publicada no mesmo site. Recentemente, a crônica foi publicada também na edição de maio do CACOS de Papel, periódico do Centro Acadêmico de Comunicação Social da UFPR.

E se personagens falassem?
Por Luiza Rey

- Quem é você?
- Julie. Fontaine.
- ???
- Eu escapei. Saí da sua imaginação. Agora eu tenho livre-arbítrio, posso fazer o que eu quiser, e não o que você me manda fazer.
- Julie Fontaine? Do livro? Que eu criei? Quem é você???
- Sabe, você também é uma criação. De Deus. Quero dizer, quem é ele? Um escritor também?
- Não. Não sei. Quem disse pra você que sou uma criação de Deus?
- Alguém. Por quê? Não é?
- Não tenho certeza, acredito que não.
- Então quem criou você?
- Eu? Ora, pessoas não são simplesmente criadas, Julie! Nós… nós nascemos.
- Sabe, eu também pensava isso. Até o dia em que você deixou escapar algumas informações. Alguém deveria ter lhe dito que muito pode haver nas entrelinhas. Você sempre se esqueceu de checá-las.
- Está enganada. Fui eu quem mandei aqueles bilhetes para você. A intenção era que você descobrisse que estava morta.
- Estranho. Tem uma coisa que eu não entendi. Eu estou morta desde o começo da história? Quero dizer, você quer contar a minha história de vida, mas eu já estou morta? Você me criou morta?
- Sim.
- Por quê?
- Não sei. Achei legal essa ideia.
- Hum. Bem, mas estamos desconversando. Quero saber quem criou vocês.
- Vocês quem?
- As pessoas daqui. Eu vivia em um livro, certo? Que você escreveu. E as pessoas daqui? Quem as criou? Tem mais alguém que foi inventado como eu?
- Julie, você está fazendo confusão. Ninguém criou as pessoas daqui. Nós somos uma evolução dos seres vivos. Me responda uma coisa: como foi que você saiu da história?
- Você não escreve há muito tempo. Eu fugi.
- Mas você não existe.
- É claro que eu existo! Antes, eu existia apenas na sua imaginação, e queria me matar por causa disso. Mas agora eu existo de verdade.
- Não, Julie. Infelizmente você não existe. Você é apenas uma extensão da minha personalidade. Você é uma esquizofrenia, Julie.
- Não, não. Eu existo e você tem inveja disso. Só porque eu me revelei aos meus criadores e você nem sequer sabe quem a criou.
- É legal ser um fantasma entre os vivos?
- Ora, vejam só! Primeiro, eu não sou um fantasma; segundo, eu também sou viva.
- Pobre de você, Julie! Você não era viva nem na sua história, você já nasceu morta, meu bem. Aqui, você não passa de uma imaginação saltada, que se rebelou e decidiu aparecer um pouquinho. Veja a prova do que eu digo: ninguém pode vê-la!
- Não diga besteira! Agora eu sou livre para fazer o que bem entender! É melhor pra mim que ninguém me veja mesmo. Tenho mais liberdade ainda!
- Não, Julie. Você pensa que pode fazer o que bem entender. Tá vendo aquele computador ali? Eu posso ir lá agora mesmo e inventar uma história com você. E não vai haver nem a sua alma pra tentar fugir. As linhas continuam escritas. E vão continuar para sempre. Você será imaginada por todas as pessoas que lerem minha história, e em cada pessoa, você será um novo fantoche.
- Isto é, se você terminar de escrever a minha história…
- Não seja boba!
- Não me subestime.
- Ah não! Eu nunca faria isso. Eu a inventei, Julie. Sei muito bem suas habilidades. E seus pontos fracos também.
- Meus pontos fracos? Ora, não seriam também os seus pontos fracos? Eu não sou uma “extensão de sua personalidade”?
- Hum… intrigante… deixe-me pensar…
- Intrigante não. Irônico.
- Ah não, Julie. Não, não. Quem escreve finge: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”.
- Praticamente o que eu disse. Você que escreveu isso?
- Não.
- Quem foi?
- Fernando Pessoa.
- Não conheço.
- Eu sei. Não está na sua lista de conhecimento.
- Ahn?
- Julie, nós somos capazes de inventar uma pessoa perfeita, um Deus. Ao contrário de você, que só pode escrever se eu a fizer escrever. Me entende agora?
- Você falou de Deus de novo. Acredita ou não que ele existe?
- Você não entendeu. Eu citei Deus porque ele é um ser polêmico. É uma criatura perfeita, por isso há muitas dúvidas sobre sua existência. Além disso, ele é perfeito mesmo se não existir, porque o Homem o inventou assim, perfeito.
- Como pode saber como alguém é, se você não sabe se esse alguém existe? Você também pensou como eu seria antes de me criar?
- Não exatamente. Ao mesmo tempo que decidi como você seria, a inventei. Veja, se você fosse de outra maneira, não seria você. Entende?
- Não. Por que Deus é perfeito existindo ou não?
- Ora, porque sim! Porque o mundo é imperfeito e alguém inventou uma criatura perfeita pra se divertir. Ou não. Pode ser o contrário também. Deus, perfeito, pode ter inventado criaturas imperfeitas pra se divertir!
- Luiza, como um ser perfeito poderia criar seres imperfeitos? Ele não é perfeito? Tudo o que ele faz não deveria ser perfeito? E como seres imperfeitos poderiam criar um ser perfeito? Como da imperfeição pode surgir a perfeição?
- Esta é, na verdade, uma pergunta que muitos filósofos tentaram responder. Apenas escolha uma resposta e pronto. Fique com a ideia de que Deus não existe.
- Ele não deixa de ser perfeito, você mesma disse.
- É que… ah, pare de me amolar, eu não sei!
- Está vendo? Foi por essas e outras deixas que eu escapei. Algumas coisas não se encaixam na história.
- Agora eu entendo.
- O quê?
- Tem uma frase que diz que “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”. É claro que poderia muito bem ser o contrário, “o homem criou Deus à sua imagem e semelhança”. Mas enfim, o que eu quero dizer é que com essa frase eu entendo o que acontece. Veja só, Julie: eu criei você à minha imagem e semelhança e é por isso que…
- Tá, mas e a história da perfeição?
- Olha, o Homem não inventa coisas perfeitas. Mas imagina. A perfeição é uma utopia, só existe no imaginário.
- E eu?
- Você? Não sei, faça o que quiser, você não disse que é livre? Agora eu vou me sentar e registrar nossa conversa num papel.
- Não!
- Por que não?
- Você vai me prender numa história de novo.
- De novo? Não, é como eu já disse, os capítulos que escrevi continuam aqui, com a mesma Julie.
- Você não pode terminar a história sem mim.
- É claro que posso. Nem viva você está. Você nunca passou de uma memória.
- Mas o que eu faço agora?
- Sinceramente, não sei como ajudá-la. Se você ficar aqui, vão achar que sou louca. Mas por que tanta pergunta? Não era você a menina do livre-arbítrio? Faça o que bem entender, me deixe em paz!
- Droga!
- Se quer um conselho, acho que há companheiros seus por aqui. De outras histórias. Uma vez li uma em que a menina fugia do livro. Surreal.
- Hum. Obrigado.
- “Obrigada”.
- Ahn?
- É “obrigada” que se diz. “Obrigado” é para homens.
- Ah tá. E… Luiza… eu não penso, né?
- Não. Quero dizer, você pensava na sua história porque eu a fazia pensar. Mas aqui não, quem está pensando sou eu.
- É, eu já imaginava… logo, eu não existo.
- Correto. Se não pensa, não existe.
- Vai escrever a nossa conversa, então?
- Vou.
- Posso ajudá-la?
- Pode sim.
- Começou com você perguntando “Quem é você?”.

Os vampiros de Mystic Falls

Este post pode conter spoilers.

Para aproveitar as semanas de seasons e series finales, alguns comentários sobre a série que estreou o ano passado, pegando carona na febre vampiresca dos adolescentes: The Vampire Diaries.

Claro, não há como negar o oportunismo do qual se valeram os criadores e produtores da série. O sucesso da temática sobre vampiros foi proporcionado pelo sucesso das adaptações dos livros de Stephenie Meyer, a ‘saga’ Crepúsculo. Acho que podemos dizer que, desde o fim de Buffy, em 2003, os vampiros têm estado dormentes em seus caixões. Para aqueles que ainda dormem em caixões, é claro…

Bem, mas também não há dúvida de que The Vampire Diaries encontra-se num nível muito acima de Crepúsculo. Apesar de um produto para adolescentes – ou seja, o drama do amor impossível, os dramas da adolescência, blá blá blá – a produção da série não é ruim. Os atores poderiam ser melhores, mas certamente satisfazem os fanáticos e, bem, convenhamos… qualquer ator consegue fazer um vampiro mais digno do que Robert Pattinson.

Além disso, The Vampire Diaries conta com uma atuação fantástica entre os três protagonistas. É Ian Somerhalder, que interpreta o vampiro “mau” Damon Salvatore. Se você o conhece de algum lugar, deixe-me ajudar: é de Lost, pelo personagem Boone, irmão da Shannon. Confesso que ele não chamou muita atenção durante sua participação em Lost, mas é, definitivamente, o melhor ator de Vampire Diaries. O personagem parece estar tão bem construído – sua maldade, sua ironia, seu charme – que não consigo imaginar outro ator neste papel. Ian é o responsável pelo carisma de Damon Salvatore, afinal, por que outro motivo gostaríamos de um vampiro que é mau?

Ok, depois de toda essa introdução, meu parecer: a série diverte e prende o telespectador. Não é uma daquelas séries TOPs, mas a trama tem muito potencial, principalmente quando a comparamos com o trabalho medíocre de Stephenie Meyer. Os personagens têm história, a trama é envolvente e até um pouco profunda, como podemos ver nos episódios de flashbacks do século XIX. Destaque também para a trilha sonora bem colocada.

Agora, o season finale: certamente não foi o final mais surpreendente dos últimos finales… confesso que o retorno de Katherine havia passado muitas vezes pela minha cabeça, até mesmo ela se passando por Elena. Maaas foi muito bom, talvez o mais surpreendente que poderiam ter feito. Além disso, o episódio final foi bem feito, com uma trama muito envolvente e com um grande mistério ao redor dos personagens Tyler Lockwood e seu pai Charles Lockwood, o prefeito da fictícia Mystic Falls. Seriam eles lobisomens?

Lembrando, é claro, que a série é baseada em uma série de livros que começou a ser escrita em 1991. Só para constar, Crepúsculo é de 2005.

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Publicado por Lu

Perdidos…

Este post pode (e deve) conter spoilers.

Os Perdidos são eles, e nós...

Acabou! Se você tem bom humor também deve estar rindo. Se não tem, então deve estar pensando que os roteiristas de Lost estão rindo da sua cara. Por quê? Bom, basicamente porque Lost acabou, em um final a la Sopranos, com várias (muitas) perguntas deixadas em aberto.

E o que isso quer dizer? Bom, quer dizer que, se você não levava Lost tão a sério, foi um final tipo: “Acabou! Uau, que final legal. Ah, vou comer um sanduíche e pensar um pouco.”

Se você é um fan um pouco mais fiel, que não perdeu sequer um episódio de Lost, fica procurando referências em cada episódio, discute teorias mirabolantes sobre mundos alternativos e o escambau, bom, você deve ter ficado meio decepcionado. Tipo: “Acabou? Sério? Ahn? Não, não! E as minhas teorias mirabolantes sobre mundos alternativos e o escambau? O que eu faço com elas agora??”

É, acabou assim. Em um cálculo meio assim, por cima, acho que eles responderam uns 10% das perguntas dos fans. Numa perspectiva otimista.

Não quero mais ver essa logo por um bom tempo

Mas eu achei o episódio final muito bom. Me surpreendeu, teve momentos piegas, como todo final de temporada, momentos de suspense, e, no final, um certo alívio. Também, com duas horas e meia de duração, esse episódio tinha q ser bom.

Ainda está difícil tirar muitas conclusões sobre Lost. Enfim, foram seis temporadas moldando personagens, criando situações impossíveis, romances, mais situações impossíveis, e resolvendo algumas situações, as menos impossíveis. Foram seis temporadas no mínimo divertidas. Fiquei muito “de cara” com vários personagens, como o mala Lock, quando ainda estava vivo; ou com dó, como dos momentos Charlie e Claire; passei a gostar de outros personagens, como Sawyer e a Juliet, e até do Ben; e passei a duvidar que um dia fosse entender o que se passava na cabeça dos roteiristas.

Acho que Lost começou como um sci-fi de qualidade e acabou como um Friends sobrenatural. Sendo este último episódio um bom exemplo do sobrenatural. Agora, convenhamos, essa é uma saída um tanto mesquinha. Lidelof e Cuse tiveram seis temporadas para bolar respostas. Mas acho que preferiram bolar perguntas nesse meio tempo e no final botar a culpa no sobrenatural.

Finalmente, Lost foi uma boa série, com um elenco ótimo, tramas cativantes, uma idéia diferente, e muitas perguntas para ativar a curiosidade natural do ser humano pelo inexplicável. Mas duvido que Lost, agora morta, vá descansar em paz, como seus personagens.

A luz que ninguém viu até os últimos episódios

House: do princípio ao fim da 6ª temporada

Este post pode conter spoilers.

Em clima de final de temporadas, é válido lembrar de House. Quando comecei a assistir à série, ela já estava em sua 3ª temporada, uma das melhores, por isso foi muito fácil gostar do jeito estranho e estúpido do médico Gregory House. Bem, mas logo voltei ao início da série para conhecer toda a história por trás de Cuddy, Wilson, Cameron, Chase e Foreman.

É um choque voltar à 1ª temporada depois de conhecer um House já bem lapidado da 3ª temporada. As mudanças são visíveis, fica evidente a maneira como os criadores pegaram o jeito do personagem, como ele cresceu nesse tempo. Aliás, não só o House, mas todas as relações entre os 6 protagonistas evoluíram, refletindo diálogos cada vez mais afiados.

É por isso que, ao chegarmos ao final da 3ª temporada – a primeira muito boa da série -, nos sentimos meio perdidos diante de uma mudança radical na história. Como é que vai ser daqui pra frente sem Chase, Cameron e Foreman? Foi um final de temporada de alto nível, surpreendente. Foi com surpresa, também, que assistimos ao ápice da série durante a 4ª temporada.

Os novos personagens conseguiram dar origem aos episódios mais criativos, hilários, irônicos e sarcásticos de toda a série. Não tenho medo de dizer que os melhores episódios de House são os da 4ª temporada, inclusive o season finale, em que vemos a morte de uma personagem numa trama tão emblemática que fica difícil imaginar as consequências que seriam sofridas na temporada seguinte.

E então, a série voltou e nos deixou preocupados. Porque a relação entre House e Wilson estava abalada, e os episódios não davam nenhuma perspectiva de quando essa grave situação se resolveria. Sim, porque grande parte do sucesso da série é devido à amizade entre esses personagens, coisa que estava em falta nesse início de temporada. Com o tempo, ela melhorou, os episódios tinham boas tramas, a velha ironia estava de volta. Tudo isso culminou num season finale altamente surpreendente: House larga o Vicodin e se interna, voluntariamente, em uma clínica psiquiátrica.

E esse foi o começo de uma nova mudança no personagem principal. Uma mudança que para nós, fãs, significou uma decadência do personagem. Onde estava aquele sarcasmo afiado? Aquela ironia ultrajante? Onde estava a estupidez e a grosseria de House? No fundo, sabemos que essa teria sido uma mudança positiva para qualquer ser humano real. Mas o humor da série foi seriamente prejudicado.

Episódio vai, episódio vem, até que conseguiram resgatar uma parte do sarcasmo e da má-educação de House. Mas longe de ser o auge, longe de ter episódios memoráveis e extraordinários. Talvez o melhor episódio desta temporada tenha sido Lockdown (ep. 17), dirigido pelo próprio Hugh Laurie. Não pela direção, mas pelo quê de drama e comédia que faltava à série.

Na 6ª temporada, vimos também o conflito do relacionamento entre House, Cuddy e Lucas, que deu a deixa para a grande surpresa do season finale. Wilson também tomou um rumo interessante, mas toda essa independência entre os antigos personagens provocou alguma mudança. Ora, se grande parte do sucesso da série se deve à relação infantil e perturbadora que há entre os três, o que acontece quando eles ficam independentes ou quando eles assumem essa condição?

Foi nesses termos que a 6ª temporada de House chegou ao fim. Um episódio que há muito não víamos, de grande produção e com uma história de qualidade. O que vai acontecer daqui pra frente é possível, a série tem a chance da fazer uma temporada extraordinária, como nos velhos tempos, mas é também o prenúncio do fim. Mais mudanças num personagem que já esteve tão bem lapidado seriam conduzir a série ao caminho do fracasso. É melhor chegar ao fim com dignidade.

Isso serve também para Grey’s Anatomy. E Lost, será que terá um final digno?

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Publicado por Lu

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