A história se repete, já dizia Marx

A história da produção cultural, principalmente literária, do Ocidente sempre funcionou como um pêndulo, alternando-se basicamente entre o Racionalismo e o Subjetivismo. Foi assim que surgiram as maiores oposições entre escolas literárias, como o Romantismo e o Realismo. Lembrou das aulas do ensino médio?

Então vamos falar do Romantismo. Na Europa, seu surgimento foi catalisado pela grande depressão pós-Revolução Industrial que tomou conta do povo. A euforia de urbanização e de desenvolvimento passou, e tudo o que se via nas cidades era uma leva de miseráveis sendo explorados pelas fábricas, passando fome e frio, não tendo onde morar.

A onda de depressão causou também problemas econômicos, então a melancolia era geral. Os poetas, geralmente jovens da elite da sociedade, pareceram se condoer com a triste situação. Surgiram os poemas do Romantismo, trazendo os ideais de amor impossível, idealização da mulher amada, subjetivismo e o sentimentalismo exacerbado, que, às vezes, levava ao suicídio.

Bem, todo esse exagero e a vida boêmia não eram bem vistos pelos mais velhos e por grande parte da sociedade. Os poetas Românticos eram muito criticados, mas, em vez de chorar, eles iam beber e escrever mais alguns versos. Álvares de Azevedo, poeta brasileiro representante do Romantismo, mostra claramente, no poema “Um cadáver de poeta” a situação de um trovador que havia morrido: o desprezo.

“A poesia é decerto uma loucura:
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro… Que doudos!”

Mas também, vejam só a reputação: a estreia do Romantismo na Europa se deu com o lançamento do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. O que aconteceu? Uma onda de suicídio de jovens que julgavam não ter seu amor correspondido. Centenas de pessoas vestiram-se com a mesma roupa do personagem do livro e acabaram espontaneamente com a própria vida. Que inspiração, não?

Pois é, e o Werther é, na verdade, um conhecido estereotipo dos dias atuais. Basicamente, a criatura fica o livro inteiro se lamentando de não poder ter a amada em seus braços até que se decide pela morte. O que esse blá blá blá todo faz lembrar? Os emos. O que começou sendo uma mudança musical – Emocore é, na verdade, uma vertente mais light do Punk – virou um chilique de adolescente, uma moda sem nenhuma atitude, um comportamento individualista, enfim, uma “causa” sem causa, um tipo que não propõe nada a não ser a própria depressão. A verdade é que os adolescentes de hoje são completamente vazios de atitude. Sem generalizar, é claro.

E com isso, sobra uma literatura barata, que finge buscar referências em clássicos, mas se mantém rasa, pobre e brega. Porque Crepúsculo nada mais é do que um Romantismo fora de época. Nas palavras do sábio Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Dito e feito.

OBS: A carta abaixo é usada como ilustração e não é de autoria de Goethe, mas expressa exatamente o teor do livro. Foi parte de um trabalho do primeiro ano de faculdade, feito por duas integrantes deste blog (Aham, olha o naipe dos nossos trabalhos…). É a última carta de Werther (Vejam se não parece uma carta do Edward para a Bella? Só que mais bem escrita, lógico…)

Clique para ampliar

Veja também:
Crítica literária – Crepúsculo, Lua Nova, Eclipe, Amanhecer
Fique rico imitando Stephenie Meyer
Stephen King diz que autora de “Crepúsculo” não é boa escritora

Posts relacionados:
Desafio aos fãs de Crepúsculo
Faça as contas: 8 razões pelas quais Harry Potter é melhor que Crepúsculo

Publicado por Lu

About these ads

Sobre Luiza Rey

Publicitária, rio-pretense, não come coisas verdes, tem medo de ETs e insetos. Artista frustrada (como todo publicitário), seu sonho era ser cantora. Seu segundo sonho era ser escritora, por isso escreve para este blog e tuíta no @luizarey.

Publicado em 13/05/2010, em Cultura, História, Literatura e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 18 Comentários.

  1. Muito boa sua comparação, Lu.
    Minha monografia do curso de Letras foi sobre o Romantismo no Brasil, e eu simplesmente AMO de paixão o Álvares de Azevedo, que se inspirava em minha outra paixão, Lord Byron. Para quem quiser conhecê-lo um pouco melhor eu recomendo “Noite na taverna”, uma obra fantástica (de fantasia mesmo) e macabra seguindo a linha byroniana. O livro é fininho, dá para ler de uma tacada só e está disponível para download na net.

    Das ações e romances ditos como “românticos” hoje em dia, nada tem a ver com o Romantismo em si. Se fosse nada daria certo: o mocinho nunca ficaria com a mocinha (amor platônico) e todos seriam egocêntricos e ativistas do Greenpeace (subjetivismo e a proximidade da natureza).
    Então cuidado quando vc suspirar e dizer que ele(a) é “tão romântico(a)”, essa possoa pode alimentar uma paixão platônica e nunca chegar perto de vc. hahah

    Agora me lembrei de uma coisa que um professor do cursinho disse sobre “as mortes românticas”. “Era gente morrendo por todo lado, uma tuberculose aqui, uma pneumonia ali, outros enchendo a cara… tinha poeta morrendo aos montes.”
    Foi uma época meio que sombria com relação à morte precoce da maioria dos autores, Álvares de Azevedo morreu com 19 anos.
    Como eles nunca conseguiam ficar com as amadas, juntavam a galera com dor de cotovelo e iam beber nos botecos, ficavam declamando poesias nas praças e ruas, comiam mal e levavam uma vida desregrada. Com tudo isso só podiam ir mal da saúde. Qualquer “estadia” mais demorada ao relento declamando já pegavam uma pneumonia, tuberculose ou qualquer outra coisa. Morte certa naquela época.

    Sua vó nunca ralhou com vc dizendo “sai do sereno que vai pegar uma pneumonia”?
    Pois é… ela sabia das coisas.

    Lu, faz tempo que eu não lia “ideais de amor impossível, idealização da mulher amada, subjetivismo e o sentimentalismo exacerbado”.
    Copieba de livro do colegial? hahahah

    Isso aqui já ta muito comprido, né?
    Tá bom, paro por aqui.

    bjoks

    • Rê, que comentário articulado e belo hahahahahahaha. Adorei!

    • eu a-doro seus comentários, Rê! hehehehehe um dia convenço vc a fazer um post pro blog!!! hahahahaha

      hahahaha “ideais de amor impossível, idealização da mulher amada, subjetivismo e o sentimentalismo exacerbado” – eu ouvia isso todo santo dia nas aulas de literatura! uhuahuahauhauaha eu gostei de estudar o Romantismo… nessa época eu gostava de coisas meio góticas auhauha li “Noite da Taverna” tb! e a minha turma fez uma dramatização desse poema que eu citei “Um Cadáver de Poeta”! hehehehehe foi super legal.. a gente cobriu de ano preto as paredes da sala, um amigo meu levou gelo seco, velas e taças com suco de uva! uahuahau isso no verãozão de são josé do rio preto! uahuahauhauhauhaua mas foi super legal, e adorava fazer essas coisas!
      outro livro que eu amei foi “Amor de Perdição”, do Camilo Castelo Branco. Não tem como comparar com a tentativa de resgatar isso hoje né… Crepúsculo me irrita profundamente!!

      • Eu li AMOR DE PERDIÇÃO hahahahahahahahahahahahahahaha
        nossa, do fundo do baú essa.

  2. Oi!
    Eu não vi a autoria do texto com destaque. É eu que não prestei atenção ?
    Muito bom o texto, cheio de citações! Quem disse que é impossível criticar uma coisa tosca com argumentos inteligentes?

  3. Seguinte… a gente fez esse trabalho em 2007, sobre o Werther.. se Crepúsculo já existisse nessa época a gente teria apavoraaaaado na aula do Caetano hein?! aHUSHUAHUShuaSHUahus eu ia rir demais. A gnt detonou o Werthinho, que tva na época certa.. imagine o brilhante Edward, 200 anos atrasado hahahahaha.

    Mas velho, acho q esse foi nosso melhor trabalho.
    Ficou mto pró! E caro. E deu trabalho hahaha, mas valeu. Ficou lindo S2.
    A carta é mto divertida hahaha #rilitros.
    Seremos a próxima Meyer.. (#credo haha)

  4. Então… essa frase do Marx se encaixou muito bem!
    Por pior que seja um movimento cultural, se assim podemos chamar, ele é válido quando tem uma origem, uma circunstância propícia… por mais que os Românticos tenham sido alienados (enquanto eles choravam pela amada tinha gente tentando mudar o modo de produção da sociedade, poxa!) acho que são passíveis de serem estudados pq reagiram à uma determinada situação em que viviam… mas quando tempos (séculos) depois a galera tenta trazer uma coisa de outro tempo pra nossa realidade atual só pq acham legal e bonito… aí não dá…

    É assim que vemos na arquitetura, por exemplo. Me recusarei a construir uma casinha com colunas gregas, frontões… ou as curvas da Art Nouveau! Na época as coisas eram assim pq tinham um propósito… tinha um porquê! Mas agora não! Não tem por que eu colocar uma coluna grega no meio da minha sala!!! Então por mais que existam esses ciclos que vc citou, tudo tem que ser renovado levando em consideração o q vivemos agora né!!!

    Na música também! E não falo só da geração emo, mas dessas bandinhas hardcore que vieram um pouco antes do emo.. com meninos e meninas achando que poderiam mudar o mundo usando roupas coloridas e sendo do contra… gente isso não é punk!!! o punk se encaixou perfeitamente com sua época e pronto! foi aquilo… agora o carinha ouve cpm 22, bota uma gravata colorida e um all star e vem me dizer que é punk.. aff, consciência política? pra que né??? Ai, me revolto com isso hahaha

    Mas entao… Crepúsculo… ai… nem sei o que dizer… não li, só vi os filmes… mas fico de cara que as pessoas mais legais se contentem em ler uma historinha de vampiros sem emoção, tão água com açúcar… gosta de vampiros? vai ler Anne Rice…. hehehe Mas confesso que até queria ler pra ver se é melhor que o filme ¬¬

    E esse negócio de literatura barata, músicas vazias… meu, é bem preocupante. Às vezes eu fico pensando se não sou eu que estou envelhecendo e me tornando intolerante com as novas gerações… fico achando que “na nossa época” as coisas eram diferentes… e isso parece pensamento de pai e vô… mas me diz aí: vai dizer que na nossa época não era beeeem melhor? Tentem lembrar do que líamos e ouvíamos aos 15 anos? Começando por Goethe! daria um bom post se fizéssemos uma lista né? hehehe

    é isso gurias, beijão!

    • Só um comentário antes de qq outra coisa… não perca seu tempo lendo. O livro consegue ser pior q o filme hahahaha

    • Acharam uma vez, num túmulo do Antigo Egito, ou seja, de mais de 3 mil anos atrás, uma frase sobre os jovens egípcios da época. Não lembro o que dizia exatamente, mas era o equivalente a “Aonde o mundo vai parar com essa juventude de hoje?” que usamos hoje. Ou seja, jovem é jovem, as gerações atuais SEMPRE vão reclamar das gerações que vierem depois. E antes uma geração durava 50 anos, hoje já dura 10 ou menos, com a rapidez em que a tecnologia avança. Bom, eu acho que essas coisas sem qualidade que a gente vê hoje não vão durar, nem tudo fica pra história. Crepúsculo??? Eu dou risada por dentro quando falam da Stephenie Meyer como uma das maiores escritoras contemporâneas! Isso é passageiro!

      Concordo totalmente com vc quanto à questão do contexto. Agora, quando vc faz uma coisa inspirada em movimentos artísticos passados é outra coisa. Pq realmente, uma coluna grega por si só no meio de uma casa q não tem nada a ver com isso, é totalmente sem sentido e brega. ahuahauhaua

  5. Meu deus, agora q vi como ficou grande o.O

  6. É sério? hauhauah geralmente acontece o contrário né…

    • Infelizmente sim :/
      o 1 equivale.. talvez o livro seja melhorzinho.
      o 2 o filme é BEM melhor. ( e continua ruim hahaha)
      o 3 parece seguir o msm caminho..

  7. Nada a ver o comentário comparativo com os Emos, o que tem a ver com o Romantismo quanto movimento cultural do século XIX que influencia a política e filosofia? Viagem!! e se acreditas, pelo menos argumente para sustentar essa ideia.

    Pior ainda foi o comentário da Jéssica que interpreta os Românticos como infantis que não estavam nem aí para a realidade.. (o marxismo parece mesmo alienar e doutrinar).

    Os românticos eram ávidos críticos à situação emergente de industrialização, isso na Inglaterra, França e Alemanha, onde foi mais tardio. Eles viam as pessoas saindo do campo, se desenraizando, perdendo seus instrumentos de produção (agora sim usando Marx, mesmo que superficialmente) e indo para as cidades trabalhar em oficinas e projetos do que viria a ser indústrias: o romantismo critica este processo…

    Ainda vens me dizer que os romanticos só queriam saber de chorar? vai estudar História!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.403 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: