“Ferido de mortal beleza” – Mario Quintana

Não sei bem porque, mas sei que gosto bastante de poesia. Sair por aí anunciando isso pode querer dizer alguma, pense você, mas eu não quero dizer nada. Só que gosto de poesia. Não lembro bem, mas um dos primeiros poemas que eu li e gostei foi “Memória” do Drummond. “Amar o perdido / deixa confundido / este coração”. Ainda estava no colégio estudando o modernismo brasileiro – que também me fez ser apaixonado pela literatura brasileira, e um belo dia “desvendei” esse poema com um amigo. Foi engraçado.

 

Esse todo mundo já ouviu: "Todos esses que aí estão / Atravancando meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho" (1978)

Pois bem, o tema do post é, na verdade, o gaúcho Mario Quintana. Mais por teimosia, carrego comigo sempre o “Quintana de Bolso”, edição da L&PM do autor. É uma reunião de várias épocas e estilos que o autor desenvolveu na sua longa vida literária. O primeiro poema dele que me impressionou foi o número XXXV da “Rua dos Cataventos”. Segue um trecho:

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão…
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!…

Quintana nasceu em Alegrete (RS), em 1906. Aprendeu a ler em casa com os pais, que também lhe ensinaram alguma coisa de francês. Nos anos 1920, começa a trabalhar em jornais da região de Porto Alegre, ao mesmo tempo em que iniciava sua produção literária. Ganhou um concurso de contos em 1925. Nos anos 1930 inicia seu grande trabalho de tradução de grandes clássicos da literatura europeia, como Marcel Proust, Voltaire, Guy de Maussapant e outros.

A partir da década de 1940, sua produção de poesias já é amplamente conhecida e aceita, tanto nos meios literários quanto ao público em geral. Quintana conviveu com vários dos (outros) grandes poetas do Brasil – Drummond, Bandeira, Cecília Meirelles. É cidadão honorário de Porto Alegre e Doutor Honoris Causa da UFRGS. Faleceu em 1994, em Porto Alegre, atingindo, finalmente, sua libertação. A morte, não sempre de maneira pessimista, é bastante presente na obra de Quintana. “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”



Dentre as suas grandes características, talvez a maior seja a “rara legibilidade”. Em outras palavras, Quitana é fácil de ler. Para um poeta desse calibre, isso é um baita mérito. Isso fica bastante claro na sua série “Espelho Mágico”, publicado em 1951 com recomendações de ninguém menos que Monteiro Lobato:

“Das corcundas

As costas de Polichinelo arrasas
Só porque fogem das comuns medidas?
Olha! Quem sabe não serão as asas
De um Anjo, sob as vestes escondidas…”

“Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada…
E terminados desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.”

“Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!”

“Da condição humana

Se variam na casca, idêntico é o miolo,
Julguem-se embora de diversa trama:
Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo
Que o mais sutil dos sábios quando ama.”

 

Já falei que gosto muito de edições de bolso? hehe

O que eu quero dizer é que Quintana devia ser daqueles caras que nos faziam acreditar na humanidade – se estou errado, as palavras deles com certeza ainda o fazem.

Links Relacionados:

Releituras – Mario Quintana – Biografia

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Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa

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Publicado em 06/11/2010, em Cultura, Literatura e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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