O Dia Mundial do Rock e o review de “The Wall – Roger Waters”

Hoje, 13 de julho, é comemorado o Dia Mundial do Rock. E é aí que surge a pergunta: que raios isso significa hoje em dia?

Quais as bandas atuais são veneradas e, mais que isso, irão entrar para a história?
Que artista irá mobilizar antigos fãs dentro de algum tempo?
Quais os clássicos serão ouvidos eternamente?

Não sei responder e nem tenho a pretensão de ter essa resposta. Todas as bandas que consigo imaginar que ainda existem, já são antigas e atravessaram gerações, mas nenhuma delas surgiu há pouco tempo. Peguemos os Rolling Stones, por exemplo, que em 2012 atingem 50 anos em atividade (ontem mesmo a primeira apresentação da banda completou meio século).

Mas das mais recentes, talvez o Foo Fighters seja uma exceção. Red Hot Chilli Peppers, talvez. No entanto, em que nível podemos falar delas como marcos? Quando pararem de tocar, suas canções se tornarão hinos? Por melhores que sejam e por mais que já façam parte da história, acho pouco provável que resistam ao tempo.

Até porque a era de ouro do rock já passou. Já vieram e já se foram Queen, Led Zeppelin e muitos outros. Então, querendo ou não, o Dia Mundial do Rock acaba soando como uma celebração ao passado. Ao rock clássico. E ao invés de ficar enumerando tudo de sensacional que já passou, aproveitarei esse espaço para fazer um review que já devo há um tempo aqui pro blog: o show do Roger Waters, ex-Pink Floyd, no Morumbi em abril desse ano.

“Lights! Turn on the sound effects! Action!”

Como eu já disse aqui mesmo no Biscoitos Sortidos, minha relação com o Pink Floyd surgiu, basicamente, por ter ouvido tanto a banda – por tabela – enquanto crescia. E quanto mais velha eu fui ficando, mais eu fui gostando.

Descobri que além de Wish you were here (que eu adoro) havia um universo muito mais rico, interessante e sensacional. Pude então, aos poucos, conhecer hits menos ‘pop’ como Lost for Words e On the turning away, que me conquistaram definitivamente.

E mesmo tendo uma ideia do que me esperava no Morumbi, naquele domingo, 1º de abril, eu não estava lá muito preparada para aquela experiência.

Pelo jeito, nem eu e nem os marmanjos que me rodeavam e que caíram no choro (não estou citando nomes, viu, vocês que foram comigo).

Tudo que envolve o show de The Wall, que é muito bem planejado e não foge – e nem pode fugir – da programação, é mais que grandioso. É gigantesco. Bem como o muro que se constrói ali no palco.

Roger, obviamente, não toca alguns dos grandes sucessos do Pink Floyd, como Time, Breathe, Us & Them ou mesmo Wish you were here. Mas isso realmente não importa, o universe que compreende The Wall é muito maior que isso.

“Tear down the wall!”

Com uma veia claramente comunista, é incrível ver o espírito de 1979 de volta em 2012.

Mais de 30 anos depois, os fãs, agora grisalhos, ainda gritam a plenos pulmões a rebeldia que uma vez tomou conta de cada um ao entoar “all in all it’s just another brick in the wall”.

Logo no início do show, algums símbolos do consumismo despencam de helicópteros e caem projetados no muro-telão. A plateia vai a loucura. Um dos momentos mais histéricos é a queda de logos da Mercedes.

E lá ainda, eu me perguntei… quantos donos de Mercedes não estavam ali, gritando a plenos pulmões? Muitos, com certeza.

Aliás, lá mesmo no estádio eram vendidos moletons da turnê oficial a míseros 150 reais. Ironia.

Mas era o Roger Waters… e isso não fazia nenhuma diferença. É provável que mesmo que você não fosse um fã de Pink Floyd também se admirasse com o show.

Aliás, falando no Sr. Waters, que artista! Sensacional. Um dos integrantes mais importantes da banda, é muito mais que um cantor, é ator, um completo performer. De preto e jeans, um senhor do rock que dá um show à parte dentro do show.

Roger Waters e seu muro.

Se a gente já fica feliz quando nosso gringo-famoso-favorito aprende lá um “Oi, tudo bem?” cheio de sotaque, o que dizer de Roger Waters que não apenas conversou em potuguês, como chegou mesmo a fazer um discurso político na nossa difício língua. Lembrou até Jean Charles (aquele do metrô de Londres), que teve seu momento no show.

O espetáculo segue uma linha rígida, mas nem por isso perde o encanto. Cada detalhe é magnificamente pensado e Roger, como todo grande roteirista, sabe exatamente os pontos que irão mexer com a galera. Por exemplo, ainda no começo do show, quando ele canta em Mother, “mother should I trust the government?“, no muro-telão surge a resposta.

De um lado, “NEM“. Do outro, “NO“. As pessoas reagem, animadas. Aquele ar rebelde toma conta novamente. Mas o grande momento vem a seguir, quando se completam:  “NEM FUDENDO“/ “NO FUCKING WAY“. Uma vez mais, público ensandecido.

No.fucking.way.

(Não pensem vocês, caros amigos, que eu esteja julgando alguém. Afinal, eu mesma fui uma daquelas pessoas que enlouqueceu quando viu isso. Achei mais que genial, certeiro.)

Outro momento de destaque é quando começam a aparecer no telão fotos de soldados, fotos de vítimas da guerra e ainda vídeos de soldados que voltam para casa de surpresa. Vídeos como esse aqui, que você provavelmente já deve ter visto isso aí pela net.

Mas ao som de Bring the Boys Back Home tudo ganha ares de novidade.

Sabe… depois que você começa a trabalhar com eventos, ou mesmo com publicidade, você pode sair do trabalho mas ele não sai de você. Isso quer dizer que onde quer que você esteja, você vai ficar analisando o tipo de projeção no telão, a forma como montaram a estrutura, se tem ambulância, ou mesmo o fundo de palco. Mas enfim, dá pra sobreviver desse jeito. Eu, por exemplo, estava embasbacada com aquele telão. Aquele ritmo perfeito, a sincronia com a gravação ao vivo e os vídeos que entravam. Achei tudo absurdamente sensacional.

De resto, saí de mim em Another Brick in The Wall e passei alguns minutos imaginando como seria estar viva quando essa música foi lançada. Pirei com Comfortably Numb. Cantei muito com Hey You. Morri incontáveis vezes no show.

Épico.

E já que começamos esse post falando sobre ídolos sem geração e clássicos, vale terminar o post comentando algo legal: antes que o show começasse, algumas músicas tocavam para distrair o público que esperaria por horas. E, sem dúvida, Hey Jude foi tão cantada quanto seria um sucesso do próprio Pink Floyd. Deu até pra lembrar aquele mesmo Morumbi, um ano antes, com o Hey Jude original na voz de Paul McCartney.

Roger Waters e a histórida do Pink Floyd mostraram naquele domingo que também serão eternos. Por gerações, irão ecoar entre pais, filhos e netos. Em cada acorde, cada solo, cada projeção do filme The Wall no muro-telão. Em cada lágrima, cada grito e cada sorriso que se espalharam pelo estádio.

Exatamente como o rock deve ser. Seja em um 13 de julho ou em um 1º de abril, eterno.

Amém.

#TogetherWeStandDividedWeFall

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Sobre Lê Scalia

Mineira, corinthiana e publicitária. Apaixonada por cinema, também adora viajar: pelo mundo, por um livro ou pela vida. Às vezes irônica, sempre intolerante: a ignorância, falta de respeito e lactose. Pra mais @LeScalia.

Publicado em 13/07/2012, em Música e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Felipe Scalia

    Novamente, as lágrimas!

    Não existe maneira de não se emocionar ao lembrar daquele 1º de abril!

    Eu estava ao lado de quem, graças a Deus, conseguiu me ensinar a gostar de som com qualidade! Ao lado de quem também cresceu escutando e aprendendo junto comigo!

    Não havia melhores companhias!

    Numa era de tchus, tchas e tchês e de ser praticamente obrigado a escutar músicas que “artistas” se esforçam ao nível último de suas criatividades, ter na memória um momentos desses é indescritível! É impagável!

    EU era um dos marmanjos que se desmanchou ao início do show e que estava sem voz ao final!

    Daqui uns anos poder olhar pra trás e saber que participei de espetáculo desses será mais que emocionante!

    Poder curtir novamente imagens e vídeos de sons que valem a pena ser ouvidos, pois esses, sim, serão ETERNOS!

    • Seu comentário ficou melhor q meu post hahaha. Foi sensacional mesmo, eu pirei aqui revendo e ouvindo novamente… valeu cada centavo né?
      Quando acabou a gente só pensa que meu, precisávamos de mais disso!

  2. Foi a melhor resenha sobre o show que li desde quando senti na pele e nunca dei conta de descrever o que é The Wall. Já tentei, tentei e tentei escrever mas nunca consegui passar aquela emoção por escrito. As suas parecem que se encaixaram melhor. Muito bom mesmo.

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