Arquivo do autor:Guilherme Sobota

Super Bowl XLV – O jogo

Quem acompanhou o Biscoitos essa semana percebeu que o Super Bowl foi tema recorrente – nem poderia deixar de ser. Segundo alguns sites e agências internacionais, a audiência foi a maior da história da televisão americana, superando o recorde anterior do Super Bowl XLIV, ano passado. De acordo com a Reuters, a média de audiência foi de 111 milhões de espectadores nos EUA, com o pico máximo de 169 milhões.

O troféu Vince Lombardi, este ano foi disputado pelo Green Bay Packers e pelo Pittsburgh Steelers. (Foto: Getty Images)

Não foi só isso. O SB também bateu um recorde no Twitter. Segundo o portal de tecnologia da UOL, ele passou a ser o evento esportivo mais comentado na rede virtual de microblogs – ultrapassando o recorde Copa do Mundo de 2010. Nos picos, perto do final do jogo, o Twitter chegou a contabilizar mais de 4 mil tweets por segundo, bem mais do que foi registrado no recorde da Copa do Mundo (um jogo entre Japão e Dinamarca, em que o Twitter contabilizou, nos picos, 3 mil tweets por segundo). O Japão, aliás, detém esse recorde fora do mundo dos esportes: na virada deste ano no Japão, o Twitter registrou mais de 6900 tweets por segundo sobre o assunto.

Pois bem, fora isso, Super Bowl é Super Bowl, com várias celebridades no estádio (de cabeça, lembro de Cameron Diaz, John Travolta, Jennifer Aniston, e aquele cara que parece o Nino do Castelo Rá-Tim-Bum… tá, desculpa hehe), show no intervalo (só ouvi falar mal, mas achei mó legal o Slash aparecer do nada), e ingressos nas áreas laterais do campo a mais de 10 mil dólares. Também não é disso que quero falar.

Quero falar do jogo.

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Um Erro Emocional – Cristovão Tezza

“Saboroso”. Foi essa a palavra que mais marcou os seis meses que convivi com Cristovão Tezza, na sala da aula da universidade. Tanto pelo adjetivo, que em si caracteriza esse tempo, como pela voz do professor que sempre dizia isso. “Saboroso”, e logo após a piada, dava gargalhadas características. Se algo levo da universidade, as duas aulas semanais, durante um semestre, com Cristovão Tezza com certeza estão lá.

 

Tezza, o próprio. (Foto: Guilherme Pupo/Divulgação)

Mas o que eu quero dizer é que a frase inicial do novo romance de Cristovão Tezza, catarinense de Lages radicado desde sempre em Curitiba, entra no rol de frases inesquecíveis da literatura brasileira: “Cometi um erro emocional”. Sua nova obra, “Um Erro Emocional” (Record, 2010, 192 páginas) é a primeira depois do aclamado “O Filho Eterno”, que lhe rendeu os prêmios mais importantes da literatura brasileira em 2008 e 2009 (Jabuti de melhor romance, São Paulo de Literatura, Portugal Telecom e outros). Depois de uma obra largamente premiada, espera-se de um autor outra pelo menos com a mesma qualidade.

Mas o que Tezza traz com sua nova obra é irrepreensível. Erigido por um autor que já alcançou sua maioridade literária, o livro reflete justamente isso: a maturidade. Uma única cena, um único diálogo, entre um homem de 42 anos, separado, e uma mulher nos seus 30, que o recebe em sua própria casa é o jugo que Tezza toma para si para compor a obra. O incrível é que o autor transforma essa cena comum, talvez corriqueira, em uma grande composição literária.

 

Edição da Record segue as "republicações" das obras anteriores do autor. (Divulgação)

Cento e noventa e duas páginas depois da primeira frase o que o leitor experimenta é uma sensação estranha, contrária àquela vontade comum de querer saber o desenlace de um livro. O que se sente, acompanhando o diálogo entre Paulo Donetti e Beatriz, é uma vontade de o livro não acabar, com a certeza de que o próximo a ser lido não será tão bom quanto esse. A sensação é que Tezza poderia continuar escrevendo esse romance para sempre.

O que se acompanha não é meramente o diálogo entre os dois personagens – ele caberia facilmente em dez páginas do livro, dando um palpite -, mas sim uma desconstrução da vida daquelas duas pessoas. Cada frase, cada entonação, e muitas vezes cada palavra que ambos utilizam nesse diálogo traz uma lembrança, um fato, uma marca do passado e da personalidade. E é exatamente aqui que Tezza ganha o leitor – por meio daquele diálogo comum, o autor molda dois personagens bastante profundos.

O que o autor faz é colocar os pensamentos dos personagens em primeiro plano, ocupando o lugar das descrições de cenário, da fala propriamente de um narrador. Para isso, o autor também adapta a linguagem ao fluxo de pensamentos de qualquer ser humano: frenético, lacônico e ao mesmo tempo frequentemente interrompido, e de maneira bastante precisa. O que ele faz é transformar esse ato corriqueiro – de nem sempre se dizer o que se pensa, às vezes até o contrário – em um romance denso e muito característico.

 

Tezza recebendo o Portugal Telecom, um dos prêmios que ele levou com "O Filho Eterno" (Divulgação)

– Que o escritor tem de descobrir tudo sozinho, e é assim mesmo que eu sempre quis – e ele se empertigou num segundo tenso, o que ela percebeu, recolhendo lenta a página amarela tentando descobrir o que estaria acontecendo, mas o próprio Donetti desfez a couraça com um suspiro: – Bem, agora, e ele parecia procurar a palavra – agora eu me entrego. Acho que você – e mais uma vez ele procurava a palavra – é a pessoa – e ele frisou – perfeita”. (trecho de “Um Erro Emocional”, página 61)

E eu não consigo achar outra palavra para resumir esse livro que não aquela: “Saboroso”.

Infância – J. M. Coetzee

Além do nome agradável à fala, o sul africano de 70 anos ganhou em 2003 o Prêmio Nobel de Literatura. Coetzee publicou seu primeiro livro em 1974, na África do Sul, seu país de origem, e desde então produziu uma obra bastante refinada – pelo menos é um sucesso de crítica e, ora bolas, levou o Nobel. Mas pelas leituras na Internet, Infância (1997) representa bem as características que perpassam sua literatura – pessimismo fino, crueza de descrições, e, segundo Cristovão Tezza, “a investigação da solidão e dor humana”.

John Maxwell Coetzee, sul-africano, Nobel de Literatura

Infância é o início de uma série autobiográfica-ficcional que Coetzee continua, até agora, em Juventude (2002) e Verão (2010). Parece difícil escrever uma autobiografia de qualidade (não vale estilo Donald Trump e megaempresários, roqueiros doidões e outros, que convenhamos, não parecem peças da literatura), mais difícil ainda escrever uma biografia ficcional. Coetzee fez os dois.

Em Infância, ele relata parte da sua vida quando criança na África do Sul – parte em Cidade do Cabo, parte em Worcester (cidade perto da outra), os conflitos étnicos e raciais do país e a vida sufocante em família. A superproteção da mãe, o fracasso profissional do pai e a relação estranha com os amigos são componentes da obra – a pergunta é até que ponto esses elementos estiveram, de fato, presentes na vida real do escritor. Impossível de saber.

"Infância", na edição de bolso da Companhia das Letras. Edição bastante agradável.

O que eu quero dizer é que, pessoalmente, considero fundamental certo distanciamento dos elementos que serão abordados na literatura produzida. Ao mesmo tempo também é fundamental ter proximidade. Se fosse pra dizer, eu não sei se conseguiria escrever algo sobre a minha própria família (embora eu tenha certeza de que não conseguiria escrever sobre muitas coisas).

Mas isso não importa. A experiência com a autobiografia foi, afinal, elemento que contribuiu para o sul-africano levar o Nobel.

Pessoalmente, o livro foi bastante interessante, exatamente pela densidade com que ele abordou as diferentes relações: familiares, sociais e raciais. Não julgo. Mas se me pedissem uma recomendação para um livro sobre família, não hesitaria em escolher Dois Irmãos, do amazonense Milton Hatoum. Mas é coisa de gosto, vai entender.

Bem, vou parar de falar besteira e indicar, de quem entende, textos sobre o Coetzee, escritos por ninguém menos que Cristovão Tezza (que inclusive já jantou com o cara, em Adelaide, onde ele mora, neste ano), no site do autor.

Diário de um ano ruim, de J.M. Coetzee – Guia Folha, 27/06/2008

A indigestão da ética – Mais!, da Folha, 5/05/2002

“Apesar das aparências, Coetzee não pode ser reduzido a um escritor psicológico, analisando motivações metafísicas ou insondáveis da alma” [...] “A desconcertante ironia de Coetzee, desenhada pela simplicidade cartesiana de sua frase, dá uma leveza extraordinária ao mundo sombrio que relata”. (Trechos de uma crítica que Tezza escreveu para a Folha, em junho deste ano).

Falando em Tezza, a @gabimateos comprou esses dias o novo livro dele, Um Erro Emocional, leu e falou que é interessante. Disse que ia postar aqui alguma coisa, mas não essa semana, porque afinal de contas, nem no Brasil ela está (hehehe).

Infância, enfim, é uma pequena parcela da literatura de Coetzee, que nos relembra, de maneira emocionante, a frieza do mundo, da sociedade, e enfim, do ser humano.

Viva o povo brasileiro – João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro é imortal da Academia Brasileira de Letras. Está lá ao lado dos inquestionáveis Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony e outros do mesmo naipe. Também está ao lado de Paulo Coelho, José Sarney, e outros, do mesmo naipe. Sem dúvida, o baiano de Itaparica, nascido em 1941, de feição doutoral e voz bastante grossa, mestre em ciências políticas pela Universidade da Califórnia do Sul, e até hoje jornalista, está no primeiro escalão da ABL.

Não preciso ler outro livro de João Ubaldo, que não “Viva o povo brasileiro”, para afirmar que o autor ocupa o primeiro escalão da literatura brasileira do séc XX, riquíssima. Posso ser chamado de ingênuo, mas ler este livro, na edição de “bolso” da Editora Objetiva foi, como diriam, saboroso. O romance, aliás, foi vencedor do agora polêmico Prêmio Jabuti de Melhor Romance, de 1984, e João Ubaldo ganhou o Prêmio Camões, em 2008, considerado dos maiores prêmios da lusofonia literária.

 

João Ubaldo Ribeiro, brasileiro.

A proposta de “Viva o povo…” é complexa. São quatro séculos de história da Bahia e de vários personagens que habitaram aquelas terras. Tem de tudo: caboclo canibal, senhor de engenho, escravo trabalhador, escravo revoltado, escravo feiticeira, classe média do Império, clero, poeta do romantismo que mais tarde vira bancário inescrupuloso de sucesso, general do exército que batalhou contra a morte sem honra na Guerra do Paraguai, negra liberta que luta contra a opressão e desigualdade à la socialismo, socialista de fato que luta contra ditadura, classe média que assiste a Rede Globo e que em 1971 fala, referindo-se à política nacional, que está tudo bem.

A história mesmo, é de uma alma, que vive no poleiro das almas, e que segue o caminho de vida das almas, qual seja ocupar corpos, mas essa é especial: ela se torna uma alma brasileira, para todo o sempre. E aí, ela vai pulando de personagem em personagem até o final do livro.

Já falei por aqui que romances históricos são sensacionais. Fazer um, de maneira tão satisfatório, é realmente um desafio que transcende muitos limites razoáveis. “Viva o povo…” não fica atrás. Romance de formação histórica, social, cultural e ululante, embora o próprio João Ubaldo fale que ele nunca pensou nisso. Mas vá lá. Nessa edição, um pouco menor de “altura”, o livro tem 789 páginas. Escrever 789 páginas do que quer que seja, é foda. Escrever 789 de um romance desse calibre, é… sei lá o que é.

Pra não ficar no bla bla bla, vou falar de um personagem inesquecível do livro: o Caboco Capiroba. A descrição inicial do autor sobre o personagem é legal: “O caboco Capiroba apreciava comer holandeses”, diz João Ubaldo, ali em 1647. Capiroba é meio negro, meio índio, que vive fugido com duas mulheres que ele “roubou”. O barato da vida do cara é, enfim, comer holandeses. E aí o resto não vou contar.

 

Edição de "bolso", da Editora Objetiva. 789 páginas de pura malemolência.

Outra coisa sensacional desse livro é a linguagem que o baiano adapta século a século. Especialmente nos diálogos, a língua também é protagonista desses quatrocentos anos de história – senão a própria formadora de toda essa história e das personalidades de cada um.

Enfim, “Viva o povo brasileiro” é uma leitura, com trocadilho sem graça, longamente prazerosa.

Minda-Au – Marcio Renato dos Santos

Escrevi esse texto primeiro para o Jornal Comunicação, lá da UFPR. Ele saiu no mês passado, aqui, com o título “Histórias de um curitibano”. Dias depois, o próprio Marcio colocou o texto no blog que ele montou para o livro, com o mesmo nome. Segundo o autor, o texto que segue “é simpático, com muita bossa”. Me dei o direito de editar novamente, mas lá vai.

Lá no fundo, Marcio. Aqui no primeiro plano, de costas, equipe do BSortidos (Eu, Gabi, Lu, Le que não apareceu na foto). Foto do blog do autor.

“Quem disse que livros de contos não têm personagens principais, provavelmente errou. Marcio Renato dos Santos, 36, jornalista curitibano, desmente a afirmação duplamente: o recém-lançado “Minda-Au” (Record, 2010, 84 págs) é uma coletânea de contos notadamente autobiográficos. Além disso, outro personagem é central nos sete contos que compõe a obra: a cidade de Curitiba.

Minda-Au foi, conforme o autor explica na apresentação do livro, das primeiras palavras que proferiu – uma referência a um dromedário que habitava um quadro na casa de sua avó. “A partir de Minda-Au eu comecei a me tornar Marcio Renato dos Santos”, escreve o autor.

A partir daí, fica bastante clara a inspiração biográfica do livro. A segunda narrativa, “A Guitarra de Jerez”, por exemplo, conta a história de uma guitarra que é fatal a todos que a tocam e que jaz, agora, na sala do narrador. A dúvida de tocá-la ou não perpassa o conto – Marcio admitiu, na seção de lançamento do livro, na quarta-feira, 10 de novembro, nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação, em Curitiba, que deixou o hábito de tocar guitarras há algum tempo. O conto derradeiro do livro, “Ali, Agora”, também trata da relação do autor (ou do narrador?) com quem ele chama de “mestre”. Marcio teve uma relação de bastante afinidade com Jamil Snege, escritor curitibano que faleceu em 2003.

A melhor história do livro, entretanto, é “Pra quem busca uma nova vida (ou Cinco meses em Porto Alegre”, que traz a Curitiba para o plano central. No conto, o personagem narrador fala do tempo em que passou longe da cidade – e como isso afetou sua capacidade de escrever. Diz o autor, no livro: “Não consigo iniciar uma frase em Porto Alegre. Não tentei. Mas me sinto incapaz. Ao menos leio. Os jornais. E os autores gaúchos. Dos clássicos aos contemporâneos. [...] Estou em Porto Alegre mas parece que não”.

Também nesse pequeno trecho se percebe uma característica contínua na linguagem de Marcio: as frases curtas. Talvez herdadas do estilo direto do jornalismo, elas dão o ritmo que o autor deseja. A exceção é o conto “De Teletransporte Nº 2”, em que ele faz justamente o contrário: frases muito longas, sem nenhuma pontuação. Outro objetivo cumprido, outro ritmo.

Marcio Renato Dos Santos (foto do blog do autor).

Outra ferramenta utilizada pelo autor é o fluxo de linguagem que mescla, na história, a realidade com o sonho. Tanto em “De Teletransporte Nº 2” quanto em “O Espírito da Floresta” o autor confunde – da maneira saudável – o leitor nesse sentido. O que se narra é a realidade ou apenas o mundo onírico do personagem?

No encontro do dia 10, em Curitiba, Marcio também comentou que ainda não havia lido o livro depois de publicado. Para ele, o processo de publicação ainda não foi digerido. “Algo que eu guardava só pra mim, agora reunido e podendo estar por aí, em qualquer lugar do Brasil… é muito estranho”, revela. Isso sugere a relação entre um pai coruja e o filho que sai para as suas primeiras festas – e este, que ainda tem um futuro a trilhar, parece ser um retrato fiável da carreira literária do estreante Marcio Renato dos Santos”.

10 Dias que Abalaram o Mundo – John Reed

Comecei a ler “10 dias que abalaram o mundo” com um pé atrás. Preconceito burro. Sorte que comecei a ler, pelo menos. 400 páginas de um livro de bolso depois, não me arrependo nem um pouco.

John Reed, o próprio.

John Reed nasceu em 1887, em Portland, nos EUA, e morreu na Rússia em 1920, antes de completar 33 anos. Não por isso, fez carreira no jornalismo do início do séc. XX, que todos sabem que se distanciava mais do que hoje do que a gente chama de “imparcialidade”. Militante comunista, Reed cobriu a Revolução Mexicana entre 1911 e 1914, e a Revolução Russa de 1917 – o que rendeu “10 dias que abalaram o mundo”, considerada a primeira reportagem moderna.

As muralhas do Kremlin e o mausoléu de Lênin. John Reed foi o único ocidental a ser velado ali.

 

Imagem histórica do funeral de Reed.

O livro é um relato intenso dos dias que culminaram a Revolução Bolchevique na Rússia. O convívio com Lênin, Trotsky, Tchernov, outras lideranças, e com os operários, camponeses e soldados que estabeleceram o primeiro regime socialista da história municiaram Reed a traçar um quadro bastante preciso do clima que imperava na Rússia – especialmente em Petrogrado (hoje Leningrado, então capital do país) e em Moscou. Algumas coisas me chamaram atenção, e foi uma baita lição de história para mim. Vou tentar resumir.

A primeira, talvez a mais marcante, foi a de que a Revolução Bolchevique não foi fácil, nem idealizada – flores não caíam nos Congressos a cada discurso apaixonado de Lênin e de Trotsky. Pelo contrário, havia uma oposição forte e violenta ao Partido Bolchevique na Rússia. Ainda havia movimentos monarquistas (já fracos, é verdade), muitos movimentos burgueses (entre outros, os cadetes), e uma grande oposição socialista moderada. Esta última incluía o Partido Socialista Revolucionário (dividido entre esquerda e direita), os mencheviques (membros do Partido Operário Social Democrata Russo, assim como os bolcheviques) e outras organizações que defendiam a Revolução, mas não uma “ditadura do proletariado” como faziam, intransigentemente, os Bolcheviques. A Revolução de Novembro, dos Bolcheviques, não foi unânime.

 

Vladimir Ulianov, o Lênin.

 

Bolcheviques marcham na Praça Vermelha após a vitória. A revolução, embora não unânime, foi legítima.

Outra coisa que aprendi foi bastante simples, na verdade, embora fundamental para entender a Revolução. O significado da palavra soviete. Como Reed explica no prefácio, sovietes eram organizações sócio-políticas que existiam nas províncias da imensa Rússia, controladas por operários, soldados e camponeses. O lema da Revolução bolchevique sintetizava tudo muito bem: “Todo o poder aos sovietes!”. Claro que havia sovietes que não eram partidários dos bolcheviques, mas era essa a política.

Por fim, é bastante interessante acompanhar o desenvolvimento de uma Revolução política. Ela já havia acontecido, em Março, mas o Governo Provisório de um sujeito chamado Kerensky estava levando a Rússia a passos largos para o buraco. Vem então, o partido bolchevique, com a liderança enérgica de Lênin e Trotsky e toma o poder. Engana-se quem acha que esse processo é simples e indolor.

 

O Smolni foi o centro dos trabalhos do Partido Bolchevique durante a Revolução de Novembro.

O próprio Lênin escreveu uma introdução ao livro.

“Com imenso interesse e igual atenção li, até o fim, o livro 10 dias que abalaram o mundo, de John Reed. Recomendo-o, sem reservas, aos trabalhadores de todos os países. É uma obra que eu gostaria de ver publicada aos milhões de exemplares e traduzida para todas as línguas, pois traça um quadro exato e extraordinariamente vivo dos acontecimentos que tão grande importância tiveram para a compreensão da Revolução Proletária e da Ditadura do Proletariado. Em nossos dias, essas questões são objeto de discussões generalizadas, mas, antes de se aceitarem ou de se repelirem as idéias que representam, torna-se necessário que se saiba a real significação do partido que se vai tomar. O livro de John Reed, indubitavelmente, ajudará a esclarecer o problema do movimento operário internacional.

V. I. Lênin – Fins de 1919″

Em 1981, Warren Beatty dirigiu Reds, filme sobre a vida de John Reed, indicado a 12 Oscars. Ainda não vi, mas pretendo muito em breve.

Vale muito a pena ler “10 dias que abalaram o mundo”. Uma baita lição de história.

*Imagens via Google Images

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O menino do pijama listrado – John Boyne

Um carro e um sonho: lançamento do MINI Countryman em Curitiba

Graças a vocês, nossos queridos leitores e tuíteiros, o Biscoitos Sortidos pôde estar presente no lançamento do Countryman, novo modelo da MINI, em Curitiba! Eu e @gabimateos fomos até o Santa Quitéria, onde fica a loja da MINI na cidade, e vimos de perto o carro. É pra resumir? Então: SENSACIONAL!

 

Divulgação

Com lançamento oficial na cidade previsto para o Salão do Automóvel de Curitiba, a partir do próximo dia 20, o MINI passou a ser entregue no Brasil ainda nesse mês de novembro… segundo informações da revista Quatro Rodas, você leva o carro por uma bagatela de aproximadamente R$110 mil (não tinha nenhuma informação visível sobre isso por lá, mas eu acredito que por ora ele seja mais caro). Nada mal.

Quanto ao carro, assim como o Cooper (o outro modelo da MINI disponível no Brasil), ele é demais. Maior, porém, o Countryman lembra um SUV da marca. Bem mais espaçoso que o Cooper (4,1m x 3,7m de comprimento, com basicamente o dobro da capacidade do porta-mala, por exemplo), ele impõe muito mais respeito. Dependendo do modelo, o Countryman chega a até 184 cv, também nada mal para um carro desse tamanho. Outra coisa que chama atenção é o interior… o painel é simplesmente sensacional.

Quanto à festa do lançamento, a @gabimateos tinha outro compromisso e não ficamos muito tempo (razão pela qual não apuramos informações mais específicas e nem pudemos tirar uma foto do lado do carro – HAHAHAHA) – o que deu pra perceber é que o @BSortidos esteve no centro da high-society curitibana!

Confira as fotos que a gente tirou:

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Só pra ilustrar: no lançamento mundial, a MINI fez uma série de filmes sobre o Countryman (vi isso lá no Brainstorm9). Achei legal!

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Revista Quatro Rodas – MINI Countryman chega ao país por R$110.000

MINI – MINI Countryman Gallery

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Ele é “isso e aquilo”, mas eu gosto dele.

O menino do pijama listrado – John Boyne

No momento que escrevo esse texto, acabo de ler as últimas linhas do livro “O menino do pijama listrado”, de John Boyne. Não estou com lágrimas nos olhos por dois motivos: já sabia o que aconteceria (tinha visto o filme) e estou em um lugar público. Se estivesse em casa, sem saber o que o final daquele livro guardara, não poderia garantir nada.

Pois bem, o livro foi uma surpresa bastante agradável para mim. Sim, é um Best-seller. Vendeu tanto quanto “Marley e Eu”, por exemplo (dados não-oficiais). Mas, a dupla história-e-linguagem do livro de Boyne é demais.

 

O irlandês John Boyne

A história é de Bruno, um garoto alemão de 9 anos de idade, que vive em Berlim no auge da Segunda Guerra. Seu pai, oficial do exército alemão, é nomeado para uma missão “bastante especial”, que obriga a família toda a se mudar da cidade. Isso representa uma quebra enorme para qualquer garoto dessa idade – deixar para trás o resto da família (avós), os amigos, a casa da infância, o ambiente urbano.

Enfim, eles se mudam para o campo – que se descobre ser a Polônia. Isolado, sem amigos, Bruno começa a noiar. As aulas particulares junto com a irmã Gretel ajudam a aliviar um pouco, mas se imagine com nove anos, cercado de soldados nazistas (carrancudos e metidos, é a imagem que o autor passa), numa casa de campo sem nenhuma diversão aparente – o mais próximo que ele chega disso é um balanço de pneu que constrói no jardim, porém sem muito sucesso.

Para não se entregar ao tédio, Bruno decide praticar uma velha distração: explorar. Ele sai para andar pela floresta do lado da casa, encontra uma cerca gigante e do outro lado dela, um garoto, da mesma idade. Bruno não sabe bem disso, mas é a cerca de um campo de concentração de judeus – ele vê, e não entende, todas aquelas pessoas com as mesmas roupas, os mesmos pijamas listrados.

O garoto que ele encontra é Shmuel. Durante um ano, os dois convivem (em segredo), e formam uma amizade bastante significativa para ambos. E aí o resto se desenrola.

A linguagem do livro é simples, mas essa simplicidade me surpreendeu. Não há, nela, imagens diretas e cruas do nazismo, mas sim elementos que levam o leitor a entender as coisas. Imagens jogadas, cruas, estão nas histórias o tempo todo, mas representar isso a partir da visão de um garoto de 9 anos foi a missão que Boyne cumpriu – e muito bem, por sinal.

Por exemplo, o líder da política alemã da época é chamado no livro de Fúria, uma clara alusão à dificuldade do menino de pronunciar a palavra corretamente. A região do campo de concentração que a família passa a viver, para Bruno, é “Haja-Vista” (o mais famoso de todos os campos… lembrou?).

O retrato que Boyne traça do nazismo é sufocante. O medo de falar coisas que não se deve, de quebrar alguma regra do pai e dos seus companheiros, enfim, o medo das pessoas está ali, implícito na visão ingênua do garoto de nove anos. A sensação que se tem ao ler o livro é de caminhar na corda bamba: a qualquer momento, a qualquer falha, o Fúria voltará para pegar todos nós.

 

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“Ferido de mortal beleza” – Mario Quintana

Não sei bem porque, mas sei que gosto bastante de poesia. Sair por aí anunciando isso pode querer dizer alguma, pense você, mas eu não quero dizer nada. Só que gosto de poesia. Não lembro bem, mas um dos primeiros poemas que eu li e gostei foi “Memória” do Drummond. “Amar o perdido / deixa confundido / este coração”. Ainda estava no colégio estudando o modernismo brasileiro – que também me fez ser apaixonado pela literatura brasileira, e um belo dia “desvendei” esse poema com um amigo. Foi engraçado.

 

Esse todo mundo já ouviu: "Todos esses que aí estão / Atravancando meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho" (1978)

Pois bem, o tema do post é, na verdade, o gaúcho Mario Quintana. Mais por teimosia, carrego comigo sempre o “Quintana de Bolso”, edição da L&PM do autor. É uma reunião de várias épocas e estilos que o autor desenvolveu na sua longa vida literária. O primeiro poema dele que me impressionou foi o número XXXV da “Rua dos Cataventos”. Segue um trecho:

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão…
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!…

Quintana nasceu em Alegrete (RS), em 1906. Aprendeu a ler em casa com os pais, que também lhe ensinaram alguma coisa de francês. Nos anos 1920, começa a trabalhar em jornais da região de Porto Alegre, ao mesmo tempo em que iniciava sua produção literária. Ganhou um concurso de contos em 1925. Nos anos 1930 inicia seu grande trabalho de tradução de grandes clássicos da literatura europeia, como Marcel Proust, Voltaire, Guy de Maussapant e outros.

A partir da década de 1940, sua produção de poesias já é amplamente conhecida e aceita, tanto nos meios literários quanto ao público em geral. Quintana conviveu com vários dos (outros) grandes poetas do Brasil – Drummond, Bandeira, Cecília Meirelles. É cidadão honorário de Porto Alegre e Doutor Honoris Causa da UFRGS. Faleceu em 1994, em Porto Alegre, atingindo, finalmente, sua libertação. A morte, não sempre de maneira pessimista, é bastante presente na obra de Quintana. “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”



Dentre as suas grandes características, talvez a maior seja a “rara legibilidade”. Em outras palavras, Quitana é fácil de ler. Para um poeta desse calibre, isso é um baita mérito. Isso fica bastante claro na sua série “Espelho Mágico”, publicado em 1951 com recomendações de ninguém menos que Monteiro Lobato:

“Das corcundas

As costas de Polichinelo arrasas
Só porque fogem das comuns medidas?
Olha! Quem sabe não serão as asas
De um Anjo, sob as vestes escondidas…”

“Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada…
E terminados desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.”

“Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!”

“Da condição humana

Se variam na casca, idêntico é o miolo,
Julguem-se embora de diversa trama:
Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo
Que o mais sutil dos sábios quando ama.”

 

Já falei que gosto muito de edições de bolso? hehe

O que eu quero dizer é que Quintana devia ser daqueles caras que nos faziam acreditar na humanidade – se estou errado, as palavras deles com certeza ainda o fazem.

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Releituras – Mario Quintana – Biografia

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Agosto – Rubem Fonseca

Rubem Fonseca nasceu em 1925, em Juiz de Fora (MG). Trabalhou em tudo quanto é tipo de coisa, até largar tudo e ser escritor. Reservado, faz o estilo Dalton Trevisan: não gosta de jornalistas.  Estudou administração e comunicação nos Estados Unidos, deu aula na Fundação Getúlio Vargas (RJ), foi crítico e roteirista de cinema, atualmente é dedicado à literatura. Já ganhou os prêmios Jabuti (nas categorias Conto e Romance) e o prêmio Camões (concedido pelos governos de Brasil e Portugal a escritores lusófonos), entre inúmeros outros. Dentre suas obras mais famosas estão “O Cobrador” (1979), “O Buraco na Parede” (1995) e “Agosto” (1990).

Rubem Fonseca

Agosto é um romance que registra o mês derradeiro da vida de Getúlio Vargas. Chamado de romance histórico, Agosto tem como personagem principal o comissário de polícia Matos (Fonseca ocupou esse cargo na vida real, mais ou menos na época do livro). Matos é policial honesto, correto, de classe média, que tem duas mulheres pegando no pé (uma delas é casada e maluca, mas foi um amor da adolescência), uma úlcera que dói bastante (um retrato preciso do livro é as pastilhas de Pepsamar que o cara fica mastigando o tempo todo), e que passa então a investigar dois crimes naquele agosto de 1954.

A princípio, o atentado a vida do jornalista Carlos Lacerda (pai da imprensa golpista no Brasil) e o assassinato de um magnata em seu próprio apartamento no Rio de Janeiro. A partir daí, o autor cria um misto entre a realidade do primeiro acontecimento, a ficção do segundo, e os bastidores da polícia, da política, e da vida em geral da época, que Fonseca vivenciou. Quem aí não gosta de um detetive, né?

Edições de Bolso me fazem feliz hehe.

Gosto bastante de história, principalmente século XX do Brasil. Gosto bastante de literatura, principalmente da literatura do século XX do Brasil. Conclua.

Agosto também foi adaptado para TV, numa minissérie da TV Globo, em 1993.

Excelente leitura para o fim de domingo.

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Um mestre do jornalismo literário – Joseph Mitchell e “O Segredo de Joe Gould”

 

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