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En Passant: Capítulo 2

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Estamos falando de um detetive que tem o ego maior que o Brasil. Ele está envolvido em um mistério que começou como um mistério, mas se tornou uma questão de vingança. O ‘inimigo’ esteve por cima por um tempo durante o desenrolar das investigações e depois de um revertério, a sorte do nosso herói (?) parece ter mudado. Mas de onde vem esse mistério todo? Quem ousa desafiar o instinto e a marra do nosso detetive? Por essas, e muitas outras respostas, você não perde por esperar…

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En Passant: Capítulo 2

 xadrex

Duas semanas antes.

A fase era boa. Então era só uma questão de tempo para que as coisas simplesmente aparecessem para mim enquanto eu estivesse por aí, en passant. Era só se mover para o lado certo, na direção mais contrária possível da rotina.

Aconteceu que meus pés encontraram um tropeço no meio do caminho. Peça indesejada. Xinguei alto, como de costume, em solidariedade a eles, e enquanto eu os poupava das calçadas de Curitiba, não pude deixar de notar aquela porta a minha frente.

Eu morava ali perto, tinha para onde ir. Mas alguma coisa fez com que eu entrasse a apertasse a campainha daquele hotel. Parecia um negócio de família abandonado. Aquelas heranças que ninguém queria, mas sobrou para algum desgostoso. O sinal da campainha foi atendido, contrariando as minhas expectativas. Achei prudente pedir um quarto. Imprudente foi a cara de surpresa daquele… Recepcionista, por falta de nome melhor, ao olhar alguns papéis amassados e me dizer um homem de sorte jogando no balcão a chave do único quarto vazio. Realmente, quanta sorte.

Imaginei que não poderia sob hipótese alguma ser caro passar a noite em um pulgueiro daqueles. Mas, tudo o que aquele cara disse foi que se eu passasse a noite bem, poderíamos falar de preço. Não era à toa que o lugar estava naquele estado. Enfim.

Peguei a chave e subi alguns lances de escadas. Me achei ousado por alguns minutos, e me convenci de que se ali não houvesse trabalho, pelo menos eu teria uma boa história para contar. Mais provável que teria os dois. Uma recompensa justa.

A cama era para ser de casal, mas com alguém do meu tamanho faltava um pouco para ser de solteiro. Um criado mudo de cada lado. Um abajur de cada lado, mas só um ligava a luz para o quarto inteiro, que terminava a um metro do pé da cama, quase onde começava o guardarroupas mais razo que eu já tinha visto em toda minha vida. Dentro dele, uns cabines, um cobertor chechelento e um cofre antigão. Tentei abrir mas estava trancado. Seria rude em qualquer outro hotel do mundo. Naquele, esperado.

O melhor era a janela, excelente vista para as melhores construções da cidade. Dentre elas, o meu prédio e a melhor janela do meu apartamento. Conseguia ver a bagunça da minha mesa de trabalho, a minha TV, tudo exatamente onde eu tinha deixado. Curioso. Foi como ver a minha vida sem mim.

Mais curioso ainda foram as fotos que eu encontrei no criado mudo. Tiradas daquela janela. Naquele ângulo da minha rotina. Um desocupado? Um curioso? Um desocupado curioso? Um fã, talvez.

Muito provavelmente não. Definitivamente, não.

Hesitei por um instante, mas achei melhor sair fora. Levei todas as evidências comigo, claro. Devolvi a chave na recepção com a mesma cortesia com que ela me foi entregue. Precisava pensar, olhar todas aquelas fotos com calma, na minha casa. Naquela mesa. Alguém começou aquele partida com alguma vantagem. Estava na hora de eu mover as minhas peças. Mas, antes, eu precisava providenciar uma cortina.

continua

Folhetim de Biscoitos é muito mais gostoso!

Quem será que está tomando conta da vida do nosso detetive? O que ele está procurando? E será que ele vai encontrar? Isso e sabe-se lá o que mais, você vê no próximo capítulo de En Passant.

En passant

As luzes da cidade acesas, clareando a foto sobre a mesa. Seus cantos já amassados, mas tentei me concentrar além do que eu via.  Era como se naquela penumbra, por um acaso do destino, eu fosse encontrar a resposta ali. Como se continuar encarando aquela mesma fotografia fosse dar sentido à tudo.

Eu nunca havia me importado. Ou aprendera a não me importar.

Ela me olhava no fundo dos olhos e eu sentia a obrigação, mais que legal, de fazer alguma coisa. Uma obrigação moral que eu nunca experimentara antes e, doía dizer, provavelmente não experimentaria novamente.

Levantei os olhos devagar e observei o quadro, lotado de anotações sem ligação e mais fotos. Nenhuma delas me causava sequer compaixão. Desde que me tornara detetive, eu havia mudado. Eram, agora, apenas partes de um quebra-cabeça sinistro naquela disputa particular que eu travara com meu ‘inimigo’.

Eu não gostava de chamá-lo assim, mas a mídia cunhara o termo. Pra mim, ele era só um oponente em uma partida de xadrez bem arquitetada. Um erro, um movimento em falso, e xeque-mate. Teria sido assim até o final, mas ela apareceu.

Comecei a sentir o que as pessoas normais – e quando digo ‘normais’ acho que me refiro aos não-profissionais – sentiriam em situações assim. Não era mais o mistério que me movia. Não era o desafio. Nem mesmo a necessidade de fazer justiça.

Era vingança.

Senti o corte ainda aberto em minha bochecha arder. Meu último encontro com “o inimigo” havia provocado aquilo. Fechei os olhos, decidido, tentando dar total liberdade ao meu cérebro. Quem sabe assim, ele talvez pudesse juntar as peças por si só. Ligar aquele vulto ágil a alguém no meio daquela confusão de fatos e falhas.

Repassei, mental e cronologicamente, cada evento, cada dia, cada pista, cada morte. Não fazia sentido. Era como se ele conduzisse meus pensamentos, como se planejasse cada jogada para me deixar com a sensação de que tudo estava sob controle. No entanto, seu rei permanecia sempre seguro. Sempre intocável.

Eu me sentia manipulado e não fazia idéia de como mudar aquela situação. Meu ego, que nunca fora exatamente “bem contido”, parecia prestes a encontrar uma solução sozinho se eu não resolvesse aquilo logo. Geralmente, não me importava com o que as pessoas achavam de mim. Mas isso provavelmente acontecia enquanto eu era admirado. Ou considerado um “babaca genial”. Nunca havia sido feito de bobo. Mas dizem que pra tudo tem a primeira vez.

E, serei sincero, aquela primeira vez estava sendo traumatizante. Não deixaria acontecer novamente. Um barulho insistente vindo de baixo fez com que, irritado, eu abaixasse o olhar e encarasse o chão. Meu relógio de pulso apitava, piscando de modo falho, do outro lado da sala. Nem me lembrava de que ele acabara largado ali, quebrado e jogado num canto.

Ele ganhara o vidro rachado no mesmo dia em que eu ganhara minha nova cicatriz. Minha boca se abriu e eu me ouvi exclamar “Puta que pariu!” quando, finalmente naquele jogo, a vantagem era minha.

***

A partir de hoje, inicia-se um experimento no blog. Essa estória aqui começada será continuada por outro integrante dos Biscoitos, na próxima semana. Palpites, comentários, dúvidas, sugestões ou se alguém (Lailis! haha) quiser participar, serão muito bem-vindos. Espero que se divirtam lendo tanto quanto a gente vai se divertir escrevendo!

En passant.

Publicado por: Lê Scalia

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