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Como surgiram os primeiros “GIFs” em 1800

Já que o blog deu uma respirada (que pode ou não ser seu último suspiro, nunca se sabe), resolvi sair da inatividade e fazer um post também. E pra isso, nada melhor do que um dos meus temas favoritos no fabuloso mundo virtual: GIFs.

Você realmente acha que a internet já produziu algo melhor que isso?

caio na buatchy

Ou isso?

dumbledore-party-hard

Ou, ainda, isso?

recalque

Pois bem, se você ainda está pensando, eu respondo:

av-brasil-nao

Então vamos ao que interessa.

O ponto principal aqui é justamente o começo equivocado desse post. Não, não existe nada mais divertido na internet do que os GIFs, isso continua sendo verdade.

Mas o fato é que os “Graphics Interchange Format”, famosos GIFs, não foram inventados com a internet. Nope. Eles nunca dependeram do modem, muito menos da internet discada. São, inclusive, até mais velhos que o próprio telefone.

Tábua de Cera da Roma Antiga (do tamanho de um, adivinhe, iPad)

Tábua de Cera da Roma Antiga (do tamanho de um, adivinhe, iPad)

Pois é, meus caros. Antes que pudéssemos perder horas, meses, dias, anos no Como Eu Me Sinto Quando, a galera já era fascinada por imagens em looping. E como desde a era Romana sempre as redes sociais já estavam por aí, os GIFs também deram lá o seu jeitinho de aparecer.

O GIF no formato que conhecemos (na telinha do computador, usando imagens gráficas repetidas) surgiu em 1987, quase junto com a popularização da internet. E, acredite, ele ganhou a galera por uma razão muito menos divertida que a atual: sua forma de compressão de dados possibilitava que imagens ~grandes~ fossem baixadas em ~menos~ tempo. Um GIF animado é formado por várias imagens GIF compactadas em uma só.

Mas voltando aos GIFs do século XIX, é claro que esses dependiam da habilidade de artistas. Eles, por sua vez, contavam com ferramentas ópticas, instrumentos como o fenacistocópio ou o traumatópio. Basicamente dispositivos como aquele bom e velho desenho sequencial que a gente faz no caderninho e depois passa as páginas rapidamente e vê a historinha acontecer (a.k.a. flip book).

É provável que esses avós dos GIFs tenham surgido de um velho desafio: como fazer imagens estáticas se moverem? Como fazê-las dançar? Pensando em fotografias que se mexem e imagens que se sucedem, não dá pra não cair no cinema.

A história é longa e rica, mas poderia acabar esquecida não fosse a paixão de alguns entusiastas da imagem em movimento, como Richard Balzer, um americano que coleciona todo tipo de dispositivo óptico desde novinho. Ele tem até um museu virtual, o The Richard Balzer Collection. Mas é aqui que entra um problema: na era dos GIFs, como fazer as pessoas se interessarem por algo estático e velho?

A ajuda de um jovem animador (Brian Duffy, provavelmente um amante dos GIFs) possibilitou que gente como a gente conhecesse o início do processo que culminou em um dos ícones da cultura pop.

buffy-referencia-pop

E esse é o resultado que eles tiveram e que nos mostram como eram esses tais old GIFs.

(Perceba que eles tinham um quedinha por imagens do DEMO)

dick-balzer-tumblr-old-gif-Zoetrope - France - 1870

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Zoetrope: "The Wheel of Life" (que eu carinhosamente apelidei de "Capoeira"

Um Zoetrope: “The Wheel of Life” (que eu carinhosamente apelidei de “Capoeira” por causa da GIF acima

 

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dick-balzer-tumblr-old-gif-Phenakistoscope - France - c. 1835

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dick-balzer-tumblr-gif-círculos

 

 

Essas são imagens de GIFs dos idos de 1830. Isso talvez ajude a explicar a tal fixação com os demos, acima destacada.

Pra terminar, fica um vídeo legal que mostra mais ou menos como esses bagulhinhos pré-históricos funcionavam.

Só mais dois comentários visuais (porque é assim que eu penso nos GIFs):

1. Pra você que não sabe apreciar a arte escondida nos GIFs.

damon-WHAT

2. Pra você que adorou escrever um post sobre GIFs.

Tina-Fey-self-high-five

BIPOLAND: imagens do passado e presente da Polônia que arrepiam

bipoland-polonia-video

Matthew Brown é um magrão que tem paixão por montar narrativas visuais. Recentemente, publicou um vídeo sobre sua passagem pela Polônia, buscando retratar a dicotomia de sentimentos vivida naquele país. O resultado é uma sequência de imagens que mais arrepia do que alegra. Leia o resto deste post

10 Belas Fotos de Lugares Abandonados

Acho muito legal ainda encontrar casas de quase um século (ou mais) perdidas em meio a tantos prédios em cidades como São Paulo, Rio ou Curitiba. É um estranho contraste, uma parte teimosa e bela do passado. E eu, que quase não sou teimoso, gosto dessas casas. Mas se simplesmente não houvesse mais ninguém? Simplesmente, abandono total?

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Tá, ainda não aconteceu o apocalipse zumbi. Mas só pra você ter uma idéia, até que o mundo ficaria assustadoramente bonito com o nosso legado.

(Via Co.Create)

Aprendendo História com o Facebook

Em uma era em que estudantes mal conseguem se distanciar por alguns minutos de seus eletrônicos (tablets, smartphones, notebooks) é fácil compreender que ensinar uma disciplina que fala sobre coisas que aconteceram séculos atrás pode se tornar um tanto quanto complicado.

Pense naquele professor de História que parece ter vivido os fatos que ele conta.

Ou, no caso, o aluno que corrige o professor (porque presenciou). #maldade

Pois é. Pode ser difícil captar a atenção dos dedicados estudiosos, certo? Não por isso!

Leia o resto deste post

Viva o povo brasileiro – João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro é imortal da Academia Brasileira de Letras. Está lá ao lado dos inquestionáveis Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony e outros do mesmo naipe. Também está ao lado de Paulo Coelho, José Sarney, e outros, do mesmo naipe. Sem dúvida, o baiano de Itaparica, nascido em 1941, de feição doutoral e voz bastante grossa, mestre em ciências políticas pela Universidade da Califórnia do Sul, e até hoje jornalista, está no primeiro escalão da ABL.

Não preciso ler outro livro de João Ubaldo, que não “Viva o povo brasileiro”, para afirmar que o autor ocupa o primeiro escalão da literatura brasileira do séc XX, riquíssima. Posso ser chamado de ingênuo, mas ler este livro, na edição de “bolso” da Editora Objetiva foi, como diriam, saboroso. O romance, aliás, foi vencedor do agora polêmico Prêmio Jabuti de Melhor Romance, de 1984, e João Ubaldo ganhou o Prêmio Camões, em 2008, considerado dos maiores prêmios da lusofonia literária.

 

João Ubaldo Ribeiro, brasileiro.

A proposta de “Viva o povo…” é complexa. São quatro séculos de história da Bahia e de vários personagens que habitaram aquelas terras. Tem de tudo: caboclo canibal, senhor de engenho, escravo trabalhador, escravo revoltado, escravo feiticeira, classe média do Império, clero, poeta do romantismo que mais tarde vira bancário inescrupuloso de sucesso, general do exército que batalhou contra a morte sem honra na Guerra do Paraguai, negra liberta que luta contra a opressão e desigualdade à la socialismo, socialista de fato que luta contra ditadura, classe média que assiste a Rede Globo e que em 1971 fala, referindo-se à política nacional, que está tudo bem.

A história mesmo, é de uma alma, que vive no poleiro das almas, e que segue o caminho de vida das almas, qual seja ocupar corpos, mas essa é especial: ela se torna uma alma brasileira, para todo o sempre. E aí, ela vai pulando de personagem em personagem até o final do livro.

Já falei por aqui que romances históricos são sensacionais. Fazer um, de maneira tão satisfatório, é realmente um desafio que transcende muitos limites razoáveis. “Viva o povo…” não fica atrás. Romance de formação histórica, social, cultural e ululante, embora o próprio João Ubaldo fale que ele nunca pensou nisso. Mas vá lá. Nessa edição, um pouco menor de “altura”, o livro tem 789 páginas. Escrever 789 páginas do que quer que seja, é foda. Escrever 789 de um romance desse calibre, é… sei lá o que é.

Pra não ficar no bla bla bla, vou falar de um personagem inesquecível do livro: o Caboco Capiroba. A descrição inicial do autor sobre o personagem é legal: “O caboco Capiroba apreciava comer holandeses”, diz João Ubaldo, ali em 1647. Capiroba é meio negro, meio índio, que vive fugido com duas mulheres que ele “roubou”. O barato da vida do cara é, enfim, comer holandeses. E aí o resto não vou contar.

 

Edição de "bolso", da Editora Objetiva. 789 páginas de pura malemolência.

Outra coisa sensacional desse livro é a linguagem que o baiano adapta século a século. Especialmente nos diálogos, a língua também é protagonista desses quatrocentos anos de história – senão a própria formadora de toda essa história e das personalidades de cada um.

Enfim, “Viva o povo brasileiro” é uma leitura, com trocadilho sem graça, longamente prazerosa.

10 Dias que Abalaram o Mundo – John Reed

Comecei a ler “10 dias que abalaram o mundo” com um pé atrás. Preconceito burro. Sorte que comecei a ler, pelo menos. 400 páginas de um livro de bolso depois, não me arrependo nem um pouco.

John Reed, o próprio.

John Reed nasceu em 1887, em Portland, nos EUA, e morreu na Rússia em 1920, antes de completar 33 anos. Não por isso, fez carreira no jornalismo do início do séc. XX, que todos sabem que se distanciava mais do que hoje do que a gente chama de “imparcialidade”. Militante comunista, Reed cobriu a Revolução Mexicana entre 1911 e 1914, e a Revolução Russa de 1917 – o que rendeu “10 dias que abalaram o mundo”, considerada a primeira reportagem moderna.

As muralhas do Kremlin e o mausoléu de Lênin. John Reed foi o único ocidental a ser velado ali.

 

Imagem histórica do funeral de Reed.

O livro é um relato intenso dos dias que culminaram a Revolução Bolchevique na Rússia. O convívio com Lênin, Trotsky, Tchernov, outras lideranças, e com os operários, camponeses e soldados que estabeleceram o primeiro regime socialista da história municiaram Reed a traçar um quadro bastante preciso do clima que imperava na Rússia – especialmente em Petrogrado (hoje Leningrado, então capital do país) e em Moscou. Algumas coisas me chamaram atenção, e foi uma baita lição de história para mim. Vou tentar resumir.

A primeira, talvez a mais marcante, foi a de que a Revolução Bolchevique não foi fácil, nem idealizada – flores não caíam nos Congressos a cada discurso apaixonado de Lênin e de Trotsky. Pelo contrário, havia uma oposição forte e violenta ao Partido Bolchevique na Rússia. Ainda havia movimentos monarquistas (já fracos, é verdade), muitos movimentos burgueses (entre outros, os cadetes), e uma grande oposição socialista moderada. Esta última incluía o Partido Socialista Revolucionário (dividido entre esquerda e direita), os mencheviques (membros do Partido Operário Social Democrata Russo, assim como os bolcheviques) e outras organizações que defendiam a Revolução, mas não uma “ditadura do proletariado” como faziam, intransigentemente, os Bolcheviques. A Revolução de Novembro, dos Bolcheviques, não foi unânime.

 

Vladimir Ulianov, o Lênin.

 

Bolcheviques marcham na Praça Vermelha após a vitória. A revolução, embora não unânime, foi legítima.

Outra coisa que aprendi foi bastante simples, na verdade, embora fundamental para entender a Revolução. O significado da palavra soviete. Como Reed explica no prefácio, sovietes eram organizações sócio-políticas que existiam nas províncias da imensa Rússia, controladas por operários, soldados e camponeses. O lema da Revolução bolchevique sintetizava tudo muito bem: “Todo o poder aos sovietes!”. Claro que havia sovietes que não eram partidários dos bolcheviques, mas era essa a política.

Por fim, é bastante interessante acompanhar o desenvolvimento de uma Revolução política. Ela já havia acontecido, em Março, mas o Governo Provisório de um sujeito chamado Kerensky estava levando a Rússia a passos largos para o buraco. Vem então, o partido bolchevique, com a liderança enérgica de Lênin e Trotsky e toma o poder. Engana-se quem acha que esse processo é simples e indolor.

 

O Smolni foi o centro dos trabalhos do Partido Bolchevique durante a Revolução de Novembro.

O próprio Lênin escreveu uma introdução ao livro.

“Com imenso interesse e igual atenção li, até o fim, o livro 10 dias que abalaram o mundo, de John Reed. Recomendo-o, sem reservas, aos trabalhadores de todos os países. É uma obra que eu gostaria de ver publicada aos milhões de exemplares e traduzida para todas as línguas, pois traça um quadro exato e extraordinariamente vivo dos acontecimentos que tão grande importância tiveram para a compreensão da Revolução Proletária e da Ditadura do Proletariado. Em nossos dias, essas questões são objeto de discussões generalizadas, mas, antes de se aceitarem ou de se repelirem as idéias que representam, torna-se necessário que se saiba a real significação do partido que se vai tomar. O livro de John Reed, indubitavelmente, ajudará a esclarecer o problema do movimento operário internacional.

V. I. Lênin – Fins de 1919″

Em 1981, Warren Beatty dirigiu Reds, filme sobre a vida de John Reed, indicado a 12 Oscars. Ainda não vi, mas pretendo muito em breve.

Vale muito a pena ler “10 dias que abalaram o mundo”. Uma baita lição de história.

*Imagens via Google Images

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O menino do pijama listrado – John Boyne

O menino do pijama listrado – John Boyne

No momento que escrevo esse texto, acabo de ler as últimas linhas do livro “O menino do pijama listrado”, de John Boyne. Não estou com lágrimas nos olhos por dois motivos: já sabia o que aconteceria (tinha visto o filme) e estou em um lugar público. Se estivesse em casa, sem saber o que o final daquele livro guardara, não poderia garantir nada.

Pois bem, o livro foi uma surpresa bastante agradável para mim. Sim, é um Best-seller. Vendeu tanto quanto “Marley e Eu”, por exemplo (dados não-oficiais). Mas, a dupla história-e-linguagem do livro de Boyne é demais.

 

O irlandês John Boyne

A história é de Bruno, um garoto alemão de 9 anos de idade, que vive em Berlim no auge da Segunda Guerra. Seu pai, oficial do exército alemão, é nomeado para uma missão “bastante especial”, que obriga a família toda a se mudar da cidade. Isso representa uma quebra enorme para qualquer garoto dessa idade – deixar para trás o resto da família (avós), os amigos, a casa da infância, o ambiente urbano.

Enfim, eles se mudam para o campo – que se descobre ser a Polônia. Isolado, sem amigos, Bruno começa a noiar. As aulas particulares junto com a irmã Gretel ajudam a aliviar um pouco, mas se imagine com nove anos, cercado de soldados nazistas (carrancudos e metidos, é a imagem que o autor passa), numa casa de campo sem nenhuma diversão aparente – o mais próximo que ele chega disso é um balanço de pneu que constrói no jardim, porém sem muito sucesso.

Para não se entregar ao tédio, Bruno decide praticar uma velha distração: explorar. Ele sai para andar pela floresta do lado da casa, encontra uma cerca gigante e do outro lado dela, um garoto, da mesma idade. Bruno não sabe bem disso, mas é a cerca de um campo de concentração de judeus – ele vê, e não entende, todas aquelas pessoas com as mesmas roupas, os mesmos pijamas listrados.

O garoto que ele encontra é Shmuel. Durante um ano, os dois convivem (em segredo), e formam uma amizade bastante significativa para ambos. E aí o resto se desenrola.

A linguagem do livro é simples, mas essa simplicidade me surpreendeu. Não há, nela, imagens diretas e cruas do nazismo, mas sim elementos que levam o leitor a entender as coisas. Imagens jogadas, cruas, estão nas histórias o tempo todo, mas representar isso a partir da visão de um garoto de 9 anos foi a missão que Boyne cumpriu – e muito bem, por sinal.

Por exemplo, o líder da política alemã da época é chamado no livro de Fúria, uma clara alusão à dificuldade do menino de pronunciar a palavra corretamente. A região do campo de concentração que a família passa a viver, para Bruno, é “Haja-Vista” (o mais famoso de todos os campos… lembrou?).

O retrato que Boyne traça do nazismo é sufocante. O medo de falar coisas que não se deve, de quebrar alguma regra do pai e dos seus companheiros, enfim, o medo das pessoas está ali, implícito na visão ingênua do garoto de nove anos. A sensação que se tem ao ler o livro é de caminhar na corda bamba: a qualquer momento, a qualquer falha, o Fúria voltará para pegar todos nós.

 

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Tá se sentindo criativo?

Eu não estava me sentindo muito criativo. Principalmente para escrever um post. Aí lembrei de um cara que, a cada dia do ano de 2009, fez algo criativo, tirou uma foto, criou um título para a foto e, finalmente, postou no seu perfil no behance. Show!

 

E se bananas quebrassem?

E se bananas quebrassem?

 

Bom, como eu não estou me sentindo muito criativo hoje, deixo com vocês a saga mirabolante e muito divertida de alguém que não é normal, simplesmente porque não vê o mundo como uma pessoa “normal” veria.

E já te pergunto, tá se sentindo criativo hoje?

Sentimento afrobrasileiro

Listen to your god
This is our motto
Your time to shine
Don’t wait in line
Y vamos por todo
People are raising
Their expectations
Go on and feel it
This is your moment
No hesitation

Today’s your day; I feel it
You paved the way, believe it

Shakira - Waka Waka

Zangado

De repente, não mais que de repente, começou a Copa do Mundo de 2010. Ok, sei que não foi tão de repente assim, mas que chegou meio quietinha chegou (acho que isso se relaciona com a falta de ânimo atual do brasileiro e a “Seleção é minha“, by Dunga).

Conversando esses dias com um amigo, a gente discutia que até quando o Brasil vence é chato. Que não dá ânimo nem quando é assim. Logo, já tenho meu segundo time escolhido: Holanda. Acho um time talentoso (mais do que os anteriores) e, mais do que isso, simpático (papel que um dia coube ao nosso Brasil). Mas, de coração, vou torcer mesmo para que a África do Sul faça uma boa campanha.

This time for Africa!

Eu enxergo  na África diversas semelhanças com o Brasil. Acho que nos identificamos com eles e a recíproca é válida. E não falo apenas da integração entre os povos, ou a evidente marca africana na cultura brasileira. Não. Somos alguns dos países com maior desigualdade social (lado a lado na lista, os africanos uma posição acima), desigualdade triste e evidente. Talvez ainda mais clara devido às consequências do apartheid; a divisão lá era principalmente pela cor. Aqui a predominância é pelo nível financeiro mesmo.

A África é ainda mais marginalizada que o Brasil. Hoje, com Lula, atingimos um status respeitável. Economia confiável (na medida do possível), grande potencial de crescimento, boa política com a grande maioria dos países e, de quebra, ainda temos “o cara”.

Talvez essa marginalização explique toda a alegria demonstrada por esse povo tão sofrido em seus “15 minutos de fama”. Não é fácil encontrar uma nação que passou e passa por tantas dificuldades como a África do Sul. Como a África em geral, já que o país está apenas representando o continente. Escravidão (levados como escravos por um país de Colonos. Pode isso?), apartheid, AIDS, pobreza…

Essa é a África. Terra que tem me encantado cada dia mais. E enquanto as outras seleções fazem amistosos com times de verdade enfrentamos países como o talentoso Zimbábue. Um país castigado pelo regime ditatorial e pela extrema pobreza, os zimbabuanos esqueceram tudo isso enquanto ovacionavam a seleção praticamente desconhecida do Brasil.

Thank you, Samba Boys“.

Esse era o cartaz mais visto espalhado pela arquibancada do estádio de Harare. Sim, ‘Obrigado, garotos do samba’. Pelo quê? Só por comparecer, certo (porque futebol bonito que é bom..)?! Isso me deixa com o coração absurdamente apertado. Algo que significa tanto para eles, serem vistos pelo mundo, mesmo que por apenas 90 minutos. A chance de realmente existir. Então, eu engulo todas as minhas críticas contra esse adversário fraco quando vejo esse agradecimento acompanhado de um sorriso.

Além do que, havia a chance de machucar o Josué. Nunca se sabe, né. O mesmo aconteceu com a Tanzânia. Jogo horroroso e futebolzinho medíocre contra uma seleção que havia jogado no dia anterior.  Nada disso realmente importa. Assim que a seleção volta para a confortável concentração na África do Sul, o povo (tanto do Zimbábue quanto da Tanzânia) volta para a realidade, que, provavelmente, não tem a Copa do Mundo como prioridade.

É esse o espírito africano. A alegria acima de todas as dificuldades, incertezas, desigualdades e superações. É rara uma

@#¨&%**#@

imagem em que não haja um africano sempre sorrindo. Bom, é fácil perceber… eu me apaixonei pela África. Sempre ouvi excelentes comentários sobre o continente africano, mas essa Copa e essa aproximação com os sul-africanos fez com que eu me encantasse cada vez mais. Tô adorando tudo. Mas ainda odeio as vuvuzelas. Apesar disso, gosto tanto dos africanos que vou guardar meu rancor pra mim.

No fim das contas, quero muito que o Brasil ganhe. Porque acho que isso fará os anfitriões da Copa felizes (lembra do papo da identificação?!). Mesmo com o futebol meia boca, mesmo com tudo isso. Continuo achando que o futebol brasileiro é visto como algo alegre e “do povo”. Então, que seja. Que joguemos essa Copa também por eles, não só por nós. Ganhar já é outra história, haha.

É basicamente isso. As divagações de alguém que, mesmo longe, se apaixonou pelos sons, cores e sorrisos da África.

***

Algumas razões para torcer por um final feliz (leia chegar às semi, como afirmou um vidente africano que vai acontecer) para a anfitriã da Copa:

  • O ex-técnico dos Bafana Bafana (o mestre do inglês, Joel Santana)
  • O atual técnico dos Bafana Bafana (o tetracampeão Parreira)
  • O verde e amarelo do uniforme (também valeria para a Austrália, mas deixa pra lá)
  • A história de vida (e superação) da África do Sul e do continente africano
  • O povo africano, simplesmente apaixonante

So many wars, settling scores
Bringing us promises, leaving us poor
I heard them say ‘love is the way’
‘Love is the answer,’ that’s what they say

K’naan – Wavin’ Flag

Mas falando da África, de sua história e de seu povo, acho impossível terminar de outro modo que não seja com ele, Mandela.

“It always seems impossible until its done.” / Sempre parece impossível até que seja feito.
Nelson Mandela
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‘Paz’ americana?

Publicado por: Lê Scalia

A história se repete, já dizia Marx

A história da produção cultural, principalmente literária, do Ocidente sempre funcionou como um pêndulo, alternando-se basicamente entre o Racionalismo e o Subjetivismo. Foi assim que surgiram as maiores oposições entre escolas literárias, como o Romantismo e o Realismo. Lembrou das aulas do ensino médio?

Então vamos falar do Romantismo. Na Europa, seu surgimento foi catalisado pela grande depressão pós-Revolução Industrial que tomou conta do povo. A euforia de urbanização e de desenvolvimento passou, e tudo o que se via nas cidades era uma leva de miseráveis sendo explorados pelas fábricas, passando fome e frio, não tendo onde morar.

A onda de depressão causou também problemas econômicos, então a melancolia era geral. Os poetas, geralmente jovens da elite da sociedade, pareceram se condoer com a triste situação. Surgiram os poemas do Romantismo, trazendo os ideais de amor impossível, idealização da mulher amada, subjetivismo e o sentimentalismo exacerbado, que, às vezes, levava ao suicídio.

Bem, todo esse exagero e a vida boêmia não eram bem vistos pelos mais velhos e por grande parte da sociedade. Os poetas Românticos eram muito criticados, mas, em vez de chorar, eles iam beber e escrever mais alguns versos. Álvares de Azevedo, poeta brasileiro representante do Romantismo, mostra claramente, no poema “Um cadáver de poeta” a situação de um trovador que havia morrido: o desprezo.

“A poesia é decerto uma loucura:
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro… Que doudos!”

Mas também, vejam só a reputação: a estreia do Romantismo na Europa se deu com o lançamento do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. O que aconteceu? Uma onda de suicídio de jovens que julgavam não ter seu amor correspondido. Centenas de pessoas vestiram-se com a mesma roupa do personagem do livro e acabaram espontaneamente com a própria vida. Que inspiração, não?

Pois é, e o Werther é, na verdade, um conhecido estereotipo dos dias atuais. Basicamente, a criatura fica o livro inteiro se lamentando de não poder ter a amada em seus braços até que se decide pela morte. O que esse blá blá blá todo faz lembrar? Os emos. O que começou sendo uma mudança musical – Emocore é, na verdade, uma vertente mais light do Punk – virou um chilique de adolescente, uma moda sem nenhuma atitude, um comportamento individualista, enfim, uma “causa” sem causa, um tipo que não propõe nada a não ser a própria depressão. A verdade é que os adolescentes de hoje são completamente vazios de atitude. Sem generalizar, é claro.

E com isso, sobra uma literatura barata, que finge buscar referências em clássicos, mas se mantém rasa, pobre e brega. Porque Crepúsculo nada mais é do que um Romantismo fora de época. Nas palavras do sábio Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Dito e feito.

OBS: A carta abaixo é usada como ilustração e não é de autoria de Goethe, mas expressa exatamente o teor do livro. Foi parte de um trabalho do primeiro ano de faculdade, feito por duas integrantes deste blog (Aham, olha o naipe dos nossos trabalhos…). É a última carta de Werther (Vejam se não parece uma carta do Edward para a Bella? Só que mais bem escrita, lógico…)

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Publicado por Lu

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