Arquivo da categoria: Literatura

Calvin e Haroldo encarnando outras duplas famosas da história

As tirinhas criadas por Bill Waterson são fantásticas e, tal como a mente de Calvin, atemporais. Calvin e Haroldo são uma das duplas mais conhecidas – e queridas – da ficção. Uma dupla que não é lá bem uma dupla convencional, mas né, que dupla realmente é?

Dito isso, vale conferir alguns “mashups” de Calvin and Hobbes com alguns outros personagens famosos do cinema, da literatura e até história.

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(Só faltou Pi e Richard Parker.)

calvin-and-hobbes-mashup-lifeofpi

(Não falta mais :).)

Aliás, #fikdica do dia: os nomes de Calvin e Haroldo (Hobbes) são homenagens a dois filósofos: John Calvin (da reforma protestante, calvinismo e tudo mais) e Thomas Hobbes (o do contrato social).

Oscar 2013 – As aventuras de Pi (Life of Pi)

life-of-pi-posterIndicações (#11):

Melhor Filme
Melhor Diretor 
(Ang Lee)
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Fotografia
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora Original
Melhor Canção Original
Melhores Efeitos Visuais
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som
Melhor Design de Produção
Melhor Maquiagem e Cabelo

Piscine Patel (Suraj Sharma) é um jovem indiano que vive uma vida comum (bom, até onde se pode ser comum tendo um nome desses e sendo dono de um zoo) até que acaba sendo o único sobrevivente de um naufrágio. Ele e Richard Parker, o tigre. E esse é o segundo filme com mais indicações ao Oscar desse ano: um garoto indiano e um tigre dividindo o mesmo bote por quase 3 horas.

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Philip por Felipe

O que dois escritores, um, americano, considerado um dos maiores da segunda metade do século XX, o outro, um iniciante brasileiro, nascido em em 1990, poderiam ter em comum?

Começa pelo nome. Philip é a inspiração para Felipe. O primeiro livro do jovem autor paulistano, “Mentiras“, será publicado ainda este ano.

Felipe Philip Roth livros

Felipe Franco Munhoz ganhou a Bolsa Funarte de Criação Literária (e um incentivo de R$ 30 mil), desbancando cerca de outros 2 mil autores, com a proposta de escrever um livro baseado na obra de Philip Roth.

O autor americano de origem judaica é referência para o brasileiro, que terá em 2013 uma das maiores honras de sua curta (mas promissora) carreira: participar das comemorações dos 80 anos de Philip Roth.

A convite da “The Philip Roth Society“, ele irá a Newark, New Jersey – cidade natal de Roth – nos dias 18 e 19 (data de nascimento do autor) de março. Felipe irá participar da mesa “Philip and the Fiction Writer“, onde ainda irá ler um trecho de seu livro ainda não publicado.

Além de tudo isso, Felipe irá mediar a mesa “Nemeses“, a respeito da última sequência de trabalhos de Roth, que anunciou aposentadoria em 2012.

Mas de onde vem essa ligação que faz duas mentes, a princípio tão distantes, parecerem funcionar de forma tão semelhante?

A resposta pode estar na infância. Felipe convive desde pequeno com um problema chamado Forame Oval Patente (FOP), um pequeno orifício no coração que pode provocar AVC e/ou intensas enxaquecas. Devido às restrições que a doença trouxe, desde garoto Munhoz dedicou-se à música e viveu em um mundo à parte na leitura. Dos gibis ele chegou aos romances policiais, dali passou para a política e enfim encontrou-se na ficção.

O incentivo veio dos pais, como ele mesmo diz:

Meus pais sempre incentivaram. Eu gostava. Há alguns dias, por exemplo, encontrei dois livros que ganhei em 1997: O último dia de um condenado à morte, de Victor Hugo; e O homem que sabia javanês e outros contos, de Lima Barreto. Fiquei surpreso com a data.

A delicada condição de saúde fez com que se acostumasse desde menino com a ideia da morte como uma companheira constante, embora indesejada.

É, talvez, esse um ponto importante que une Philip e Felipe. A ideia de finitude que permeia algumas obras do autor de “O Complexo de Portnoy” e “Pastoral Americana” esteve sempre presente na vida de Munhoz.

E mais uma vez nos nomes, Felipe e Philip se encontram frente a frente.

Mentiras” (FRANCO MUNHOZ, Felipe) é livro homônimo ao de Roth, escrito em 1990, e ambos os livros são inteiramente escritos em diálogos. As semelhanças nos traços literários continuam também no decorrer das páginas, onde a autorreflexão dos personagens, marca de Philip, também se faz presente na ficção de Felipe.

É uma grande honra que tenhamos um escritor tão jovem representando a literatura brasileira em um evento de tamanha importância. Em um universo literário com tantas obras um tanto quanto duvidosas, as Mentiras de Felipe Franco Munhoz são um alívio.

Links relacionados:

Felipe Franco Munhoz
A Honra de Homenagear o Ídolo Philip RothGazeta do Povo
Oitenta igual a vinte e doisO Globo

Jogos Vorazes (The Hunger Games)

Desde o início de 2012, eu estava empacada no tal Cemitério de Praga (ECO, Umberto). E quando eu digo empacada, quero dizer que não conseguia ler sequer uma página antes de dormir. Mas o problema é que eu tenho uma dificuldade gigante para ‘largar no meio’ livros que estou lendo (mesmo que eu não goste deles).

Um exemplo claro disso é o livro de Eco. Assim, eu só desisto após um intervalo aproximado de um ano, ou quando eu chuto o balde e vejo que isso está atrasando minha vida (porque eu também não consigo ler livremente outros livros, tenho a sensação de que há algo inacabado).

Um dos poucos livros que eu lembro de ter abandonado, depois de ter lido a metade e passado entre 06 meses e 1 ano sem pegar porque achava insuportável, foi Eclipse. (Mas esse foi tão grave que eu percebi que continuar lendo seria um desperdício de tempo ainda maior, então, devolvi os livros e fui feliz.)

Eis que essa era minha situação atual. No fim de semana, então, num ato de rebeldia, resolvi (no cinema mesmo) comprar Jogos Vorazes para ler antes do filme, já que o trailer havia me interessado – e, bom, parecia uma leitura mais simples e divertida do que a ficção italiana.

No domingo mesmo, li umas 50 páginas. Para a minha surpresa, ontem à noite eu já havia terminado a leitura. Agora, depois de toda essa enrolação, vamos às impressões que eu tive do livro.

Antes de qualquer coisa, vale a pena uma rápida sinopse.

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Pra Terminar o Dia – Harry Potter em 99 segundos

Quanto tempo você demorou para ler os 7 Potters? Ao todo, são aproximadamente 3484 páginas (264 HP1, 288 HP2, 348 HP3, 584 HP4, 704 HP5, 512 HP6 e 784 HP7) ou 1179 minutos (152 HP1, 161 HP2, 141 HP3, 157 HP4, 138 HP5, 153 HP6, 146 HP7.1 e 130 HP7.2), ou seja, quase 20 horas.

Enfim, um tempo razoável né?

Pois bem, esse rapaz, Jon Cozart, resumiu tudo em 99 segundos. Com direito a uma musiquinha divertida, que mescla alguns temas dos filmes.

O vídeo está, cheio de spoilers, claro.

Muito legal! :)

A história de uma geração

Quando hoje, na última premiere mundial de Potter, o repórter perguntou se JK Rowling tinha uma mensagem para os fãs, os milhões de fãs espalhados pelo mundo, ela disse apenas: “Thank you”.

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Um Erro Emocional – Cristovão Tezza

“Saboroso”. Foi essa a palavra que mais marcou os seis meses que convivi com Cristovão Tezza, na sala da aula da universidade. Tanto pelo adjetivo, que em si caracteriza esse tempo, como pela voz do professor que sempre dizia isso. “Saboroso”, e logo após a piada, dava gargalhadas características. Se algo levo da universidade, as duas aulas semanais, durante um semestre, com Cristovão Tezza com certeza estão lá.

 

Tezza, o próprio. (Foto: Guilherme Pupo/Divulgação)

Mas o que eu quero dizer é que a frase inicial do novo romance de Cristovão Tezza, catarinense de Lages radicado desde sempre em Curitiba, entra no rol de frases inesquecíveis da literatura brasileira: “Cometi um erro emocional”. Sua nova obra, “Um Erro Emocional” (Record, 2010, 192 páginas) é a primeira depois do aclamado “O Filho Eterno”, que lhe rendeu os prêmios mais importantes da literatura brasileira em 2008 e 2009 (Jabuti de melhor romance, São Paulo de Literatura, Portugal Telecom e outros). Depois de uma obra largamente premiada, espera-se de um autor outra pelo menos com a mesma qualidade.

Mas o que Tezza traz com sua nova obra é irrepreensível. Erigido por um autor que já alcançou sua maioridade literária, o livro reflete justamente isso: a maturidade. Uma única cena, um único diálogo, entre um homem de 42 anos, separado, e uma mulher nos seus 30, que o recebe em sua própria casa é o jugo que Tezza toma para si para compor a obra. O incrível é que o autor transforma essa cena comum, talvez corriqueira, em uma grande composição literária.

 

Edição da Record segue as "republicações" das obras anteriores do autor. (Divulgação)

Cento e noventa e duas páginas depois da primeira frase o que o leitor experimenta é uma sensação estranha, contrária àquela vontade comum de querer saber o desenlace de um livro. O que se sente, acompanhando o diálogo entre Paulo Donetti e Beatriz, é uma vontade de o livro não acabar, com a certeza de que o próximo a ser lido não será tão bom quanto esse. A sensação é que Tezza poderia continuar escrevendo esse romance para sempre.

O que se acompanha não é meramente o diálogo entre os dois personagens – ele caberia facilmente em dez páginas do livro, dando um palpite -, mas sim uma desconstrução da vida daquelas duas pessoas. Cada frase, cada entonação, e muitas vezes cada palavra que ambos utilizam nesse diálogo traz uma lembrança, um fato, uma marca do passado e da personalidade. E é exatamente aqui que Tezza ganha o leitor – por meio daquele diálogo comum, o autor molda dois personagens bastante profundos.

O que o autor faz é colocar os pensamentos dos personagens em primeiro plano, ocupando o lugar das descrições de cenário, da fala propriamente de um narrador. Para isso, o autor também adapta a linguagem ao fluxo de pensamentos de qualquer ser humano: frenético, lacônico e ao mesmo tempo frequentemente interrompido, e de maneira bastante precisa. O que ele faz é transformar esse ato corriqueiro – de nem sempre se dizer o que se pensa, às vezes até o contrário – em um romance denso e muito característico.

 

Tezza recebendo o Portugal Telecom, um dos prêmios que ele levou com "O Filho Eterno" (Divulgação)

– Que o escritor tem de descobrir tudo sozinho, e é assim mesmo que eu sempre quis – e ele se empertigou num segundo tenso, o que ela percebeu, recolhendo lenta a página amarela tentando descobrir o que estaria acontecendo, mas o próprio Donetti desfez a couraça com um suspiro: – Bem, agora, e ele parecia procurar a palavra – agora eu me entrego. Acho que você – e mais uma vez ele procurava a palavra – é a pessoa – e ele frisou – perfeita”. (trecho de “Um Erro Emocional”, página 61)

E eu não consigo achar outra palavra para resumir esse livro que não aquela: “Saboroso”.

Infância – J. M. Coetzee

Além do nome agradável à fala, o sul africano de 70 anos ganhou em 2003 o Prêmio Nobel de Literatura. Coetzee publicou seu primeiro livro em 1974, na África do Sul, seu país de origem, e desde então produziu uma obra bastante refinada – pelo menos é um sucesso de crítica e, ora bolas, levou o Nobel. Mas pelas leituras na Internet, Infância (1997) representa bem as características que perpassam sua literatura – pessimismo fino, crueza de descrições, e, segundo Cristovão Tezza, “a investigação da solidão e dor humana”.

John Maxwell Coetzee, sul-africano, Nobel de Literatura

Infância é o início de uma série autobiográfica-ficcional que Coetzee continua, até agora, em Juventude (2002) e Verão (2010). Parece difícil escrever uma autobiografia de qualidade (não vale estilo Donald Trump e megaempresários, roqueiros doidões e outros, que convenhamos, não parecem peças da literatura), mais difícil ainda escrever uma biografia ficcional. Coetzee fez os dois.

Em Infância, ele relata parte da sua vida quando criança na África do Sul – parte em Cidade do Cabo, parte em Worcester (cidade perto da outra), os conflitos étnicos e raciais do país e a vida sufocante em família. A superproteção da mãe, o fracasso profissional do pai e a relação estranha com os amigos são componentes da obra – a pergunta é até que ponto esses elementos estiveram, de fato, presentes na vida real do escritor. Impossível de saber.

"Infância", na edição de bolso da Companhia das Letras. Edição bastante agradável.

O que eu quero dizer é que, pessoalmente, considero fundamental certo distanciamento dos elementos que serão abordados na literatura produzida. Ao mesmo tempo também é fundamental ter proximidade. Se fosse pra dizer, eu não sei se conseguiria escrever algo sobre a minha própria família (embora eu tenha certeza de que não conseguiria escrever sobre muitas coisas).

Mas isso não importa. A experiência com a autobiografia foi, afinal, elemento que contribuiu para o sul-africano levar o Nobel.

Pessoalmente, o livro foi bastante interessante, exatamente pela densidade com que ele abordou as diferentes relações: familiares, sociais e raciais. Não julgo. Mas se me pedissem uma recomendação para um livro sobre família, não hesitaria em escolher Dois Irmãos, do amazonense Milton Hatoum. Mas é coisa de gosto, vai entender.

Bem, vou parar de falar besteira e indicar, de quem entende, textos sobre o Coetzee, escritos por ninguém menos que Cristovão Tezza (que inclusive já jantou com o cara, em Adelaide, onde ele mora, neste ano), no site do autor.

Diário de um ano ruim, de J.M. Coetzee – Guia Folha, 27/06/2008

A indigestão da ética – Mais!, da Folha, 5/05/2002

“Apesar das aparências, Coetzee não pode ser reduzido a um escritor psicológico, analisando motivações metafísicas ou insondáveis da alma” […] “A desconcertante ironia de Coetzee, desenhada pela simplicidade cartesiana de sua frase, dá uma leveza extraordinária ao mundo sombrio que relata”. (Trechos de uma crítica que Tezza escreveu para a Folha, em junho deste ano).

Falando em Tezza, a @gabimateos comprou esses dias o novo livro dele, Um Erro Emocional, leu e falou que é interessante. Disse que ia postar aqui alguma coisa, mas não essa semana, porque afinal de contas, nem no Brasil ela está (hehehe).

Infância, enfim, é uma pequena parcela da literatura de Coetzee, que nos relembra, de maneira emocionante, a frieza do mundo, da sociedade, e enfim, do ser humano.

Viva o povo brasileiro – João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro é imortal da Academia Brasileira de Letras. Está lá ao lado dos inquestionáveis Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony e outros do mesmo naipe. Também está ao lado de Paulo Coelho, José Sarney, e outros, do mesmo naipe. Sem dúvida, o baiano de Itaparica, nascido em 1941, de feição doutoral e voz bastante grossa, mestre em ciências políticas pela Universidade da Califórnia do Sul, e até hoje jornalista, está no primeiro escalão da ABL.

Não preciso ler outro livro de João Ubaldo, que não “Viva o povo brasileiro”, para afirmar que o autor ocupa o primeiro escalão da literatura brasileira do séc XX, riquíssima. Posso ser chamado de ingênuo, mas ler este livro, na edição de “bolso” da Editora Objetiva foi, como diriam, saboroso. O romance, aliás, foi vencedor do agora polêmico Prêmio Jabuti de Melhor Romance, de 1984, e João Ubaldo ganhou o Prêmio Camões, em 2008, considerado dos maiores prêmios da lusofonia literária.

 

João Ubaldo Ribeiro, brasileiro.

A proposta de “Viva o povo…” é complexa. São quatro séculos de história da Bahia e de vários personagens que habitaram aquelas terras. Tem de tudo: caboclo canibal, senhor de engenho, escravo trabalhador, escravo revoltado, escravo feiticeira, classe média do Império, clero, poeta do romantismo que mais tarde vira bancário inescrupuloso de sucesso, general do exército que batalhou contra a morte sem honra na Guerra do Paraguai, negra liberta que luta contra a opressão e desigualdade à la socialismo, socialista de fato que luta contra ditadura, classe média que assiste a Rede Globo e que em 1971 fala, referindo-se à política nacional, que está tudo bem.

A história mesmo, é de uma alma, que vive no poleiro das almas, e que segue o caminho de vida das almas, qual seja ocupar corpos, mas essa é especial: ela se torna uma alma brasileira, para todo o sempre. E aí, ela vai pulando de personagem em personagem até o final do livro.

Já falei por aqui que romances históricos são sensacionais. Fazer um, de maneira tão satisfatório, é realmente um desafio que transcende muitos limites razoáveis. “Viva o povo…” não fica atrás. Romance de formação histórica, social, cultural e ululante, embora o próprio João Ubaldo fale que ele nunca pensou nisso. Mas vá lá. Nessa edição, um pouco menor de “altura”, o livro tem 789 páginas. Escrever 789 páginas do que quer que seja, é foda. Escrever 789 de um romance desse calibre, é… sei lá o que é.

Pra não ficar no bla bla bla, vou falar de um personagem inesquecível do livro: o Caboco Capiroba. A descrição inicial do autor sobre o personagem é legal: “O caboco Capiroba apreciava comer holandeses”, diz João Ubaldo, ali em 1647. Capiroba é meio negro, meio índio, que vive fugido com duas mulheres que ele “roubou”. O barato da vida do cara é, enfim, comer holandeses. E aí o resto não vou contar.

 

Edição de "bolso", da Editora Objetiva. 789 páginas de pura malemolência.

Outra coisa sensacional desse livro é a linguagem que o baiano adapta século a século. Especialmente nos diálogos, a língua também é protagonista desses quatrocentos anos de história – senão a própria formadora de toda essa história e das personalidades de cada um.

Enfim, “Viva o povo brasileiro” é uma leitura, com trocadilho sem graça, longamente prazerosa.

Minda-Au – Marcio Renato dos Santos

Escrevi esse texto primeiro para o Jornal Comunicação, lá da UFPR. Ele saiu no mês passado, aqui, com o título “Histórias de um curitibano”. Dias depois, o próprio Marcio colocou o texto no blog que ele montou para o livro, com o mesmo nome. Segundo o autor, o texto que segue “é simpático, com muita bossa”. Me dei o direito de editar novamente, mas lá vai.

Lá no fundo, Marcio. Aqui no primeiro plano, de costas, equipe do BSortidos (Eu, Gabi, Lu, Le que não apareceu na foto). Foto do blog do autor.

“Quem disse que livros de contos não têm personagens principais, provavelmente errou. Marcio Renato dos Santos, 36, jornalista curitibano, desmente a afirmação duplamente: o recém-lançado “Minda-Au” (Record, 2010, 84 págs) é uma coletânea de contos notadamente autobiográficos. Além disso, outro personagem é central nos sete contos que compõe a obra: a cidade de Curitiba.

Minda-Au foi, conforme o autor explica na apresentação do livro, das primeiras palavras que proferiu – uma referência a um dromedário que habitava um quadro na casa de sua avó. “A partir de Minda-Au eu comecei a me tornar Marcio Renato dos Santos”, escreve o autor.

A partir daí, fica bastante clara a inspiração biográfica do livro. A segunda narrativa, “A Guitarra de Jerez”, por exemplo, conta a história de uma guitarra que é fatal a todos que a tocam e que jaz, agora, na sala do narrador. A dúvida de tocá-la ou não perpassa o conto – Marcio admitiu, na seção de lançamento do livro, na quarta-feira, 10 de novembro, nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação, em Curitiba, que deixou o hábito de tocar guitarras há algum tempo. O conto derradeiro do livro, “Ali, Agora”, também trata da relação do autor (ou do narrador?) com quem ele chama de “mestre”. Marcio teve uma relação de bastante afinidade com Jamil Snege, escritor curitibano que faleceu em 2003.

A melhor história do livro, entretanto, é “Pra quem busca uma nova vida (ou Cinco meses em Porto Alegre”, que traz a Curitiba para o plano central. No conto, o personagem narrador fala do tempo em que passou longe da cidade – e como isso afetou sua capacidade de escrever. Diz o autor, no livro: “Não consigo iniciar uma frase em Porto Alegre. Não tentei. Mas me sinto incapaz. Ao menos leio. Os jornais. E os autores gaúchos. Dos clássicos aos contemporâneos. […] Estou em Porto Alegre mas parece que não”.

Também nesse pequeno trecho se percebe uma característica contínua na linguagem de Marcio: as frases curtas. Talvez herdadas do estilo direto do jornalismo, elas dão o ritmo que o autor deseja. A exceção é o conto “De Teletransporte Nº 2”, em que ele faz justamente o contrário: frases muito longas, sem nenhuma pontuação. Outro objetivo cumprido, outro ritmo.

Marcio Renato Dos Santos (foto do blog do autor).

Outra ferramenta utilizada pelo autor é o fluxo de linguagem que mescla, na história, a realidade com o sonho. Tanto em “De Teletransporte Nº 2” quanto em “O Espírito da Floresta” o autor confunde – da maneira saudável – o leitor nesse sentido. O que se narra é a realidade ou apenas o mundo onírico do personagem?

No encontro do dia 10, em Curitiba, Marcio também comentou que ainda não havia lido o livro depois de publicado. Para ele, o processo de publicação ainda não foi digerido. “Algo que eu guardava só pra mim, agora reunido e podendo estar por aí, em qualquer lugar do Brasil… é muito estranho”, revela. Isso sugere a relação entre um pai coruja e o filho que sai para as suas primeiras festas – e este, que ainda tem um futuro a trilhar, parece ser um retrato fiável da carreira literária do estreante Marcio Renato dos Santos”.

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