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Viva o povo brasileiro – João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro é imortal da Academia Brasileira de Letras. Está lá ao lado dos inquestionáveis Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony e outros do mesmo naipe. Também está ao lado de Paulo Coelho, José Sarney, e outros, do mesmo naipe. Sem dúvida, o baiano de Itaparica, nascido em 1941, de feição doutoral e voz bastante grossa, mestre em ciências políticas pela Universidade da Califórnia do Sul, e até hoje jornalista, está no primeiro escalão da ABL.

Não preciso ler outro livro de João Ubaldo, que não “Viva o povo brasileiro”, para afirmar que o autor ocupa o primeiro escalão da literatura brasileira do séc XX, riquíssima. Posso ser chamado de ingênuo, mas ler este livro, na edição de “bolso” da Editora Objetiva foi, como diriam, saboroso. O romance, aliás, foi vencedor do agora polêmico Prêmio Jabuti de Melhor Romance, de 1984, e João Ubaldo ganhou o Prêmio Camões, em 2008, considerado dos maiores prêmios da lusofonia literária.

 

João Ubaldo Ribeiro, brasileiro.

A proposta de “Viva o povo…” é complexa. São quatro séculos de história da Bahia e de vários personagens que habitaram aquelas terras. Tem de tudo: caboclo canibal, senhor de engenho, escravo trabalhador, escravo revoltado, escravo feiticeira, classe média do Império, clero, poeta do romantismo que mais tarde vira bancário inescrupuloso de sucesso, general do exército que batalhou contra a morte sem honra na Guerra do Paraguai, negra liberta que luta contra a opressão e desigualdade à la socialismo, socialista de fato que luta contra ditadura, classe média que assiste a Rede Globo e que em 1971 fala, referindo-se à política nacional, que está tudo bem.

A história mesmo, é de uma alma, que vive no poleiro das almas, e que segue o caminho de vida das almas, qual seja ocupar corpos, mas essa é especial: ela se torna uma alma brasileira, para todo o sempre. E aí, ela vai pulando de personagem em personagem até o final do livro.

Já falei por aqui que romances históricos são sensacionais. Fazer um, de maneira tão satisfatório, é realmente um desafio que transcende muitos limites razoáveis. “Viva o povo…” não fica atrás. Romance de formação histórica, social, cultural e ululante, embora o próprio João Ubaldo fale que ele nunca pensou nisso. Mas vá lá. Nessa edição, um pouco menor de “altura”, o livro tem 789 páginas. Escrever 789 páginas do que quer que seja, é foda. Escrever 789 de um romance desse calibre, é… sei lá o que é.

Pra não ficar no bla bla bla, vou falar de um personagem inesquecível do livro: o Caboco Capiroba. A descrição inicial do autor sobre o personagem é legal: “O caboco Capiroba apreciava comer holandeses”, diz João Ubaldo, ali em 1647. Capiroba é meio negro, meio índio, que vive fugido com duas mulheres que ele “roubou”. O barato da vida do cara é, enfim, comer holandeses. E aí o resto não vou contar.

 

Edição de "bolso", da Editora Objetiva. 789 páginas de pura malemolência.

Outra coisa sensacional desse livro é a linguagem que o baiano adapta século a século. Especialmente nos diálogos, a língua também é protagonista desses quatrocentos anos de história – senão a própria formadora de toda essa história e das personalidades de cada um.

Enfim, “Viva o povo brasileiro” é uma leitura, com trocadilho sem graça, longamente prazerosa.

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